• Edgar Carrolo

COMO SE COMANDA UM VEÍCULO ESPACIAL EM TRABALHO REMOTO



Pode-se à primeira vista pensar que a indústria aeroespacial não é compatível com o trabalho remoto mas na verdade, não é BEM assim...


Na última semana uma equipa de engenheiros sentou-se à volta dos seus computadores a monitorizar uma sonda que realizava uma manobra à volta de um asteróide a cerca de 88 milhões de quilómetros. Foram ensaiadas um conjunto de manobras que irão ser repetidas em Agosto, e permitir a recolha de amostras de rocha da superfície do asteróide. Este ensaio está planeado há vários anos, e a equipa esperava estar a trabalhar toda junta no centro espacial, no Colorado. Em vez disso, a maior parte dos elementos estava a dar suporte à operação a partir de suas casas.


Estava apenas o esqueleto da equipa a trabalhar fisicamente, face àquilo que estava originalmente planeado”, confessou Mike Moreau, gestor de projecto da missão no centro espacial Goddard da NASA, que tem a tarefa de recolher uma amostra do asteróide Bennu e trazê-la para a Terra para ser estudada. “75% da equipa estava a trabalhar e monitorizar a missão a partir de casa.”, afirmou.


A equipa que trabalha na sonda OSIRIS-Rex lançada em 2016, tinha planeado esta operação em particular há mais de 10 anos, mas não esperavam uma pandemia num marco tão importante da missão, o que não impediu que esta decorresse dentro da normalidade.



Como muitos milhões de trabalhadores em todo mundo, os engenheiros que monitorizam e operam veículos espaciais estão a enfrentar o desafio de assegurar as suas responsabilidades, trabalhando a partir de casa. Todos os centros da NASA instituíram políticas de trabalho remoto, com excepções para o pessoal indispensável, que inclui pessoas que têm de comandar sondas interplanetárias e rovers em ambientes adversos. Para alguns, a transição foi estranha ao início, uma vez que comandar um objecto no espaço envolve muita comunicação entre pessoas. Foi esse o caso de Carrie Bridge, que trabalha em articulação com cientistas e engenheiros que operam o rover Curiosity da NASA. Todos os dias, ela fala com cientistas espalhados pelos EUA acerca do tipo de ciência que eles gostariam que o robot realizasse, transmitindo esses “desejos” aos engenheiros que controlam o robot. Normalmente, ela está com equipa de engenharia do JPL (Jet Propulsion Laboratory) em Pasadena, a coordenar os movimentos diários do rover. “A minha manhã consiste em estar ao telefone com os cientistas e depois sentada ao computador com a equipa de engenharia a acompanhar os planeamentos do robot”.


Esta sua rotina diária, mudou-se totalmente para online. “Tenho 15 a 20 chats abertos com todos os engenheiros e para a equipa de planeamento do rover, já para não mencionar nas teleconferências com vários cientistas. O nível de intensidade agora é maior porque estás sempre a haver alguma coisa”, disse Bridge. “Também não faço qualquer exercício agora, antes costumava andar por aí, e agora passo horas a olhar para um computador sem me mexer,” brincou.




Um dos responsáveis pelo planeamento do rover, chama-se Matt Gildner, que coordena todos os comandos da Curiosity a partir do seu estúdio em Los Angeles. Ele e a sua equipa começaram a testar a trabalhar remotamente em meados de Março, quando o confinamento parecia já inevitável. Ele começou então a

preparar todo o material que necessitava em casa, tais como headphones, monitores, cabos e ainda óculos 3D. A Curiosity envia imagens 3D da superfície de Marte, que os engenheiros observam sob a forma de malhas tridimensionais, permitindo simular como o rover irá interagir com o ambiente quando se move. “Estou em casa agora, e comunico através de diferentes canais de áudio com os meus auscultadores, ponho os meus óculos azuis-vermelhos e avalio partes do percurso que estamos a planear, como parte do nosso planeamento diário”, disse Gildner à The Verge.Tenho uma bela secretária, e todo o equipamento que necessito. Para mim funciona perfeitamente.”



Como é que na realidade se comanda um veículo espacial a partir de casa?


No entanto, alguém necessita de estar fisicamente no controlo da missão no JPL de forma a enviar à Curiosity os comandos que a equipa de Gildner desenvolve. Essa pessoa envia os comandos para o deep space[1], que não é mais do que um feixe emitido por grandes antenas na Terra, que são recebidos por sondas tais como o rover em particular. Outros operadores de sondas espaciais encontraram forma de enviar os seus comandos sem presença física no centro de controlo da missão.


O laboratório de dinâmica espacial no estado do Utah nos EUA, é responsável pela operação de dois pequenos satélites da NASA - HARP e CIRiS, ambos com a missão de observação terrestre (unanimemente denominados satélite de EO, derivado directamente do termo em inglês Earth Observation). A equipa tipicamente desloca-se a um centro de controlo da missão, para enviar comandos aos satélites, através de uma estação terrestre no estado de Virgina. Mas, num golpe do destino, os operadores desenvolveram um método de enviar os comandos a partir dos seus computadores antes de se dar lugar ao confinamento.


“Nós estávamos a preparar e testar as nossas metodologias aplicadas ao trabalho remoto, imediatamente antes da pandemia emergir.” Afirmou Ryan Martineau, um engenheiro e operador de satélites à The Verge. “Nós frequentemente temos de operar os nossos satélites a meio da noite, e assim não temos de ter as mesmas pessoas a conduzir em direcção ao trabalho no dia seguinte de manhã; estávamos a preparar uma solução segura.”


Martineau e os seus colegas, basicamente instalaram o software que usam no controlo da missão, e que permite conectarem-se à estação terrestre. “Nós corremos o sistema Linux, dentro do ambiente windows nos nossos computadores, que contém todo o software necessário para efectuar a comunicação com os satélites,” diz ele. Graças a este arranjo, Martineau consegue controlar os satélites em redor da Terra desde a sua casa num futuro próximo, em simultâneo com a gestão de outro tipo de responsabilidades...

“Tenho 2 crianças, uma com 1 ano e outra com 3 meses e já aconteceram casos em que tive de apressar a troca de fraldas para poder enviar comandos aos satélites na altura certa”, confessou Martineau



Qual o impacto de trabalhar remotamente?


A presença de crianças e animais de estimação tem sido a principal razão para os colaboradores da NASA trabalharem em casa, incluindo alguns altos responsáveis que têm de se dividir entre tarefas familiares e o trabalho remoto. “Tem sido realmente muito stressante ultimamente porque obviamente nós queremos ver progressos, mas por outro lado estamos preocupados com a capacidade de resposta do nosso staff,” referiu Moreau.

A missão de ensaio acabou por ter sucesso, mas com a maior parte da equipa fora das instalações de controlo de missão, alguns ajustes tiveram de ser efectuados. “Não há substituto possível para trabalhar lado a lado com outra pessoa e dizer “olha, estava a pensar acerca disto, o que achas?” afirmou Dante Lauretta, investigador principal da missão OSIRIS-Rex na Universidade do Arizona. Ele disse também que as chamadas na sua grande maioria das vezes resolveram esse inconveniente, mas que de vez em quando alguns problemas técnicos atrapalharam o desenrolar das reuniões de trabalho. Apesar do desafio, o ensaio decorreu dentro do esperado, com a OSIRIS-REx a aproximar-se como nunca antes de Bennu. Esta foi uma manobra chave para o próximo passo a ser dado em Agosto, com a recolha de 60 gramas de rocha de uma das suas crateras.




Os engenheiros estão entusiasmados com os resultados, apesar da tristeza com as actuais circunstâncias. “Eu diria que é um sabor agridoce, uma vez que correu tudo como o planeado, mas não pudemos celebrar todos juntos” disse Lauretta, que enfatiza ainda o facto de estarem à espera deste grande teste há 10 anos. “Esperemos que em Agosto possamos finalmente estar todos juntos e celebrar o momento em que recolhermos amostras de rocha.”

Para já não é claro quando o distanciamento social vai ter fim, permitindo a todos, não apenas os operadores de satélites, retomar as suas rotinas diárias. Mas até esse momento chegar, as pessoas responsáveis pelas operações espaciais estão a assegurar a maioria das acções de controlo a partir de suas casas. Para Gildner, tem sido uma boa distracção do ciclo diário de notícias acerca da pandemia. “Trabalhar é um excelente escape de tudo o que se está a passar à nossa volta, especialmente quando estás a trabalhar em projectos aeroespaciais,” diz ele. “Sentes que estás a fazer algo que a humanidade aprecia, e neste momento isso é mais importante do que nunca”.


Será que outras indústrias se conseguirão adaptar tão rapidamente a esta súbita circunstância? É a questão que se impõe!

[1] Termo que designa toda a região distante do planeta terra. Apesar de não ser unanime a distância para a qual se está no espaço profundo, a International Communications Union define o seu início numa distância de 2 milhões de quilómetros do planeta Terra. A distância da Terra à Lua, por exemplo não corresponde a esta definição, uma vez que esta dista “apenas” 384 mil quilómetros da Terra.


Autor: Edgar Carrolo LinkedIn: AQUI

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