• Mário Baleizão Jr

CONSTRUÇÃO CIVIL NA GUERRA CONTRA A PANDEMIA



A construção civil como motor da economia e da saúde, na guerra contra a pandemia de Covid-19



Vi no jornal Sol, de Sábado dia 14 de Novembro, que as previsões da Universidade de Washington, para Portugal são de 7500 a 12000 mortes, com Covid-19, até ao final deste ano, e de 9800 a 41700 até Março do próximo ano. A previsão científica da universidade americana é que vamos ter um “longo inverno”, conforme título do semanário.

Face a estes números, o Estado deve tomar todas as medidas para o bem da saúde pública. Todos sabemos que, porque os nossos hospitais não têm capacidade para tratar doentes com Covid- 19 e para que não haja doentes em excesso e hospitais sem capacidade de resposta, o país entra em “Estado de Emergência”, condiciona a actividade de muitas empresas e a circulação de pessoas, a fim de que o contágio seja gradual. Assim, o número de doentes não cresce exponencialmente e os hospitais têm capacidade de resposta. No entanto, estamos a condicionar muito a Economia, a aumentar o desemprego e a diminuir as receitas de impostos sobre o trabalho.

Todos nós sabemos também que, quem está na frente de batalha contra esta pandemia de Covid-19, são os profissionais de saúde e as instalações hospitalares. Até já temos um número considerável de ventiladores, para quem necessite de cuidados intensivos. Mas, não temos camas suficientes para tratar doentes de Covid-19, nem médicos e enfermeiros intensivistas, em número suficiente para trabalhar nas UCI (Unidades de Cuidados Intensivos) dos hospitais. O trabalho é em turnos sucessivos, 24 sobre 24 horas. Para além disto, os profissionais de saúde estão exaustos, física e psicologicamente e alguns deles entram em baixa médica por terem contraído a Covid-19.

Em resumo, não temos espaço e profissionais, para fazer frente nesta batalha contra a Covid-19, se o número de casos subir exponencialmente. E a consequência é suspendermos a Economia, com o prejuízo de empresas, postos de trabalho, rendimentos de famílias e impostos para o Estado. Para além do Estado perder impostos, vai ter mais despesas com subsídios por “Lay-off” e mais subsídios de desemprego a pagar.

Entretanto, a Europa arranjou a solução de injectar milhares de milhões de Euros em cada país, porque o que se passa em Portugal, passa-se por todos os países da Europa. Numa escala um pouco maior, ou um pouco menor, o problema é o mesmo. Há medidas de contingência e há o “shut- down” de muitas actividades económicas, porque os serviços de saúde de cada país não têm capacidade de resposta. Esta pandemia veio colocar a descoberto as fragilidades dos sistemas de saúde por esse mundo fora.

Já sabemos que para Portugal (um país com dez milhões de habitantes) virão, pelo menos, quinze mil milhões de Euros a fundo perdido, se apresentarmos propostas viáveis para aplicação do dinheiro e para revitalização da Economia. E, ainda pode vir mais dinheiro da Europa, se houver acordo entre os países membros da União Europeia. E face a esta oportunidade de nos fortalecermos nesta guerra contra a Covid-19, o que é que Portugal faz? O nosso Governo apresenta propostas para gastar muitos milhões numa linha de comboio de alta velocidade entre o Porto e Vigo, num metro de superfície entre Loures e Cruz Quebrada (Oeiras) e numa eventual ligação da linha de comboio de Cascais à restante linha férrea. Mantém-se a intenção de construir o novo aeroporto, no Montijo ou em Alcochete, e em expandir a linha de metro de Lisboa até Alcântara, já previstos antes. O investimento nos sistemas de saúde, é um valor residual e os grandes projectos para ganhar esta guerra são quase nenhuns.


Numa crise de saúde, não só nacional, mas europeia e mundial, Portugal (pelo menos) tem prioridade em gastar muitos milhões em linhas férreas, em vez de investir na saúde a sério. E a Europa, cuja economia também tem de fazer frente às economias americana e chinesa, aceita estes novos projectos feitos em cima do joelho, em vez de condicionar a maior parte dos investimentos na saúde, que são a base da crise económica e de todos os problemas consequentes. Ora, sem uma população saudável e produtiva, não é possível ter uma economia próspera e competitiva!

A China, deu-nos uma lição em como se constrói um hospital público em Wuhan, em cerca de mês e meio, com profissionais de saúde formados em tempo oportuno, para responderem às necessidades. Sabemos que a China é um país com um regime ditatorial, onde mobilizar trabalhadores e conciliar vontades é muito mais fácil e rápido. Se a China é eficiente, mas com um regime extremo, Portugal está no extremo oposto da eficiência.


Em Lisboa, Há cerca de vinte anos que discutimos a construção do Hospital de Todos-Os-Santos, para substituir os hospitais velhos e obsoletos do centro de Lisboa. Em 2008, tínhamos já projecto para o “Hospital de Lisboa Oriental” e foi feito concurso público, mas as condições de financiamento do grupo vencedor e o Estado não chegaram a acordo. Tudo está na mesma e já lá vão mais doze anos… O único grande complexo hospitalar que temos em Lisboa é o Hospital de Santa Maria e mesmo este já teve (se não tem de novo) tendas de hospital de campanha, montadas à porta, porque não tem capacidade de resposta. E isto na capital do país. Se formos ver as grandes cidades de Portugal, só o Porto e Coimbra têm alguma capacidade para fazer frente a uma pandemia, pela dimensão e relação com as universidades (faculdades de medicina).

Quando pensamos numa guerra, no sentido bélico, sabemos que todos os países investem nos seus Ministérios da Defesa, na formação de soldados nos três ramos das forças armadas: exército, marinha e força aérea. Fazem isto em tempo de paz, para estarem preparados para qualquer eventualidade, ou para prestarem apoio a outros países. Em Portugal, já tivemos serviço militar obrigatório, que agora é voluntário. Mas, continuamos a formar soldados em tempo de paz e temos forças especiais: Comandos e Fuzileiros. Temos também uma força aérea com caças, helicópteros de guerra e aviões de transporte (C-130) e até dois submarinos adquiridos recentemente. Tudo isto gera muita despesa de formação, de manutenção de instalações e equipamentos e de funcionamento de toda a hierarquia militar, em tempo de paz. No Ministério da Defesa há um potencial, em prontidão e não utilizado, que é a nossa segurança nacional.


Ora, se estamos em guerra contra uma pandemia, não devíamos fazer o mesmo no Ministério da Saúde? Se soubermos fazer contas, vamos perceber que investir na construção de edifícios hospitalares gera mais emprego e mais retorno económico e financeiro, do que investir em vias de comunicação (autoestradas, linhas férreas e comboios). Se investirmos em obras de vias de comunicação, termos muito trabalho de máquinas (escavadoras giratórias, camiões e moto-niveladoras), mas pouca mão de obra. O funcionamento das vias de comunicação também exige pouca mão-de-obra (portagens e manutenção, quando esta existe). Se investirmos na construção de edifícios hospitalares temos uma grande variedade de profissionais a trabalhar, em grande número: para além de engenheiros, arquitectos, coordenadores de segurança, encarregados, manobradores de máquinas e condutores de camiões, temos pedreiros, serventes, carpinteiros de cofragem, armadores de ferro, ladrilhadores, canalizadores, electricistas, técnicos de ar condicionado, carpinteiros, serralheiros, pintores, técnicos de informática e outros. Depois, temos todos os fornecedores e fábricas que contribuem com materiais, ferramentas, equipamentos e máquinas para a obra. E depois temos todos estes trabalhadores com mais capacidade de consumo, para fazer a “economia circular” funcionar. Quando os edifícios hospitalares estiverem prontos, temos todos os profissionais de saúde necessários para que funcionem em pleno: médicos, enfermeiros, auxiliares de enfermagem, técnicos de diagnóstico, técnicos de análise, administrativos, pessoal de limpeza e de manutenção, entre outros. Isto é gerar emprego e revitalizar a economia! É claro que é preciso investimento. Mas, talvez seja mais necessário e produtivo investir na saúde do que em linhas do comboio… O retorno talvez seja dez vezes maior. Mais emprego, mais impostos, mais consumo, mais IVA. É uma questão de fazer contas.


Em Portugal, a construção de hospitais movimenta muitos interesses. O Hospital de Lisboa Oriental nunca chegou a ser construído. Mas, em Alcântara (Lisboa), foi inaugurado recentemente o Hospital CUF Tejo. Por acaso, a arquitectura é muito semelhante, mas numa escala muito mais pequena. Só por acaso…

Mário Carlos Baleizão



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