• João Correia Gomes

COVID-19: DISRUPÇÃO RELACIONA-SE COM MUDANÇA NA SOCIEDADE?

Atualizado: Mai 12


Inteligência é a capacidade de se adaptar à mudança

Stephen Hawking


Em 2020, a humanidade partilha uma experiência inesperada e distinta. Parece também acompanhar e disseminar uma certa angústia. Mas tem sido em ocasiões críticas como esta que os humanos ficam conscientes da sua frágil condição. Uma crise sanitária muito prolongada irá revelar outras crises consequentes. Estas poderão tornar-se muito conflituosas e até disruptivas, sobretudo na economia e depois na sociedade.


Os conflitos decorrentes poderão, numa primeira fase, revelar todo um conjunto de atitudes egoístas, mesquinhas ou gananciosas dos povos e das suas classes. Mas este vírus não seleciona povos nem classes sociais. Está a ser transversal a todos. Após o insucesso devido a tais atitudes habituais, para resolver o assunto, perceber-se-á que a abordagem terá de ser diferente. Então, poderá induzir a consciência geral das frágeis condições dos ambientes que envolvem as sociedades, seja na saúde do planeta ou o sistema económico.


O progresso exige inovação. Esta depende da rotura de modelos estabelecidos.


Na História, verifica-se que grandes saltos civilizacionais raramente se deram com processos em continuidade. Pelo contrário, os ambientes instalados, como as instituições, não incentivavam (e até abafavam) mudança. A inovação permitida seria ligeira apenas para otimizar fins ligados ao poder político ou económico. As inovações de nível fundamental raramente emergiram em regimes controladores (a Europa tem sido líder nessa área).


O progresso tem evoluído com saltos expressivos após algum tipo de rotura. Esta questiona os sistemas instalados e lança conceitos distintos e inesperados, sem prévia oportunidade de se afirmarem. A consolidação das revoluções industriais dependeu de grandes guerras nos últimos 210 anos. Os grandes saltos tecnológicos dependeram de prévias disrupções na ciência que lhes daria suporte. A maioria das disrupções não emergiram sob sistemas institucionais estabelecidos. Portanto, subjacente à emergência de conceitos novos parece estar algum tipo de rotura – a destruição criativa de Schumpeter.


Por exemplo, Isaac Newton só teve a oportunidade de intuir e desenvolver a teoria da física que suportou a civilização tecnológica, quando em 1667 (com 25 anos de idade) foi obrigado a permanecer em quarentena face ao surto epidémico da peste bubónica (e a queda da maçã enquanto dormia é apenas lenda).


Outro enorme cientista que rompeu os paradigmas da ciência instituída foi Albert Einstein. As suas descobertas, como a teoria da relatividade, não foram obra de ciência instituída, mas de uma intensiva inteligência intuitiva. Sem tal rotura não teria sido possível a atual civilização baseada na Internet ou em smartphones. Uma das fontes do génio de Einstein deveu-se à rotura com o modelo de ensino de então. O processo instituído era racional, mas industrial, pois produzia ensino pela memorização e cópia, obrigando à obediência, não admitindo contrariedade nem a discussão.

Outro cientista que será fundamental para o nosso futuro, e cujas teorias irão contribuir para a evolução geral da humanidade (ainda não tangível para todos), é Stephen Hawking. Tal como Einstein, o seu génio, raro, só surge por sorte uma vez em cada século. Apenas atualmente se consegue validar as suas teorias, o que está a ser feito em grandes centros de investigação europeus e americanos. As suas inovações contam com a teoria da singularidade, a radiação de Hawking ou o paradoxo da informação. Mas o génio só se revelou após uma rotura. Neste caso foi a nível pessoal quando se revelou como doente de esclerose lateral amiotrófica. Esteve quase para desistir da vida. A doença impedia-o de mover e até falar. Não poderia ser um humano comum. A sua condição obrigou a recorrer a fontes distintas ao que estava instituído. Intuiu a partir da inteligência e criatividade do seu cérebro.


Para Gigerenzer (2014), enfrentar a incerteza requer-se a obtenção de soluções fora das abordagens correntes instituídas. Estas tendem a ser racionais, mas muito dependentes de factos e dados do passado. O risco é analisado apenas a partir do que se conhece, desprezando um universo muito maior de potenciais eventos. A incerteza está muito além da avaliação padronizada do risco. Nesta ótica, a projeção do futuro dependerá de novas abordagens, mesmo tipo fora da caixa, podendo mesmo recorrer-se à inteligência intuitiva e à criatividade.



Se a crise do Covid-19 prolongar muito tempo teremos decerto graves problemas na economia global. Estes poderão gerar conflitos, logo a roturas sociais. Estas poderão configurar os ambientes para mais uma transformação da estrutura socioeconómica, com mais ou menos dor, no caminho do Bem comum ou, como habitual, apenas para poucos.


Será o Futuro muito diferente daquele que imaginamos?

Lisboa, 1 de abril de 2020


João Correia Gomes


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