• João Correia Gomes

VIVER EM TURBILHÕES ATÉ À CATÁSTROFE GLOBAL?

Atualizado: Jul 15


O livro “Tudo o que não vemos” de Ziya Tong desperta-nos para as efetivas realidades que envolvem a humanidade. Refere-se à realidade natural, a qual a maioria dos humanos não sente (não vê), nem quer sentir, e distorce até. Será uma espécie de amnésia coletiva, acreditando em realidades artificiais, muitas delas criadas para atingir fins humanos, como o domínio e a exploração do mundo natural. Através do fabrico mental de entidades virtuais, como deuses, instituições, nações, propriedade, tempo, dinheiro ou empresas, o Homo Sapiens criou um mecanismo para domínio sobre a Natureza (e outros humanos) na ilusão de que é o dono.



Com este artigo não pretendo ser pessimista. Com todas as mortes e problemas que a pandemia do COVID-19 está a gerar, até poderá ter alguma virtude. Virtude? Salvaguarda-se desde já que é uma tragédia. A morte, mesmo que de uma pessoa, é sempre de lamentar. E tudo pode ainda piorar, pois hoje não se sabe quando e como findará. Alguns génios até já anunciam que deveria ter-se procedido “assim ou assado”. Mas, é sempre fácil avaliar em ex-post. Poderão emergir várias vagas sequenciais até à vacina poder ser inoculada em massa aos humanos. Tudo vai levar tempo. Mesmo assim, nem está a correr muito mal. Talvez por se ter encetado umas poucas medidas preventivas, embora tardias, limitou-se o avanço para uma extensa mortandade que era tão comum em outras epidemias históricas.


Agora o que pode ser chocante. A pandemia não é o problema mais grave que enfrenta a humanidade. Pode ter a virtude de abanar a nossa consciência, nós que vivemos em bolhas de ilusão, de que tudo corre bem, com um futuro feliz para todos. Na realidade, pode despertar para os problemas que são muito mais graves. Pode quebrar as nossas ilusões de tudo que fingimos não ver, olhando para o lado para não sentir a realidade que pode até conduzir à nossa extinção.

A prevenção da contaminação do vírus destapou a visão de outras situações em curso. A interrupção de fluxos de que depende uma economia moderna tem consequências, seja uma devastação não física como vemos nas guerras convencionais. Mas, está a destruir o sistema económico que depende de fluxos, primeiro de pessoas, depois de dinheiro afetando o sistema financeiro, mais os de bens que afetam o comércio. A crise parece apenas beneficiar as atividades que dependem dos fluxos de informação, afinal o grande motor da quarta revolução industrial.

Esta interrupção está sobretudo a destruir negócios que dependem da geração de contínuos cash-flows de exploração, como as indústrias de turismo ou restauração. Estes negócios são como “máquinas” dinâmicas que dependem de fluxos de caixa, com mínimo desfasamento cronológico entre a entrada de receitas (vendas) e a saída de custos. Assim, podem operar na pequena escala sem serem muito capitalizados, pelo que abundam no tecido económico. Mas, são frágeis. Se esta paragem durar demasiado tempo, facilmente serão insolventes, ou seja entram num processo de destruição que é irreversível, sem condições de reinício. E não será apenas afetado o desemprego massivo da população. A realidade é não-ergódica e nem sempre elástica. Apesar da ilusão geral, é pouco provável que o passado volte a repetir e a ressuscitar, sobretudo numa pequena economia, não rica, conservadora. A destruição irreversível gera muita dor e desespero conduzindo a opções (económicas e políticas) erradas, depois à doença, ao desânimo, apatia, depressão e morte. A sociedade de mercado pode entrar numa espiral de estagnação imparável até atingir a rotura total.


Pior que a pandemia são as mortes em massa que estavam já a decorrer no mundo. Trata mesmo de outra escala de números. Mas, como decorrem por processos lentos, disseminados ou dissimulados, logo são arrumados no subconsciente e esquecidos. A necessária prevenção deixa de ser drástica. Estes são muitos problemas mundiais que iniciaram já há décadas. E esta pandemia pode mesmo ser talvez uma consequência.

Os verdadeiros problemas são os que derivam da poluição gerada pelas economias, sobretudo por países como a China, a India, Brasil, EUA. Estão a provocar ecocídios e etnocídios, a contaminar o ar, a muito escassa água doce, o mar ou o solo. Estão a destruir-se os ecossistemas de que dependemos para viver. A humanidade dirige-se a ritmo acelerado para uma Terra Inabitável (Wallace-Wells, 2019). Está já a experienciar o suicídio coletivo numa ilusão de aparências e de envenenamento gradual.



A agricultura e a pecuária superintensivas empobrecem e contaminam o solo e geram uma crueldade sem limites para os animais. A sobre-exploração do mar esgota todos os seus recursos que, em breve, deixarão de ser renovados. Estão a emergir desertos em solos terrestres e submarinos, antes muito férteis, quando é necessário alimentar cada vez mais gente. O mesmo se passa com a água potável. Ou, então, o excesso de alimentação pobre consumida por grande parte dos humanos a gerar obesidade mórbida, ou a fome que alastra por tantas outras regiões. São alterações climáticas que irão submergir as regiões costeiras onde vive a maioria da população do planeta. Este é um risco muito mais provável. As consequências serão bem mais graves do que a doença ou a economia. É a própria extinção da humanidade em curso.


Os humanos vivem em bolhas da sua realidade pessoal, sejam físicas ou psicológicas. Isolam-se do que acontece no mundo, desde que não lhes afete a sua vida pessoal ou do grupo (tribo, nação). A destruição em cadeia está a repetir-se. É até semelhante com a Alemanha nazi da década de 1930 quando se perseguiam e destruíam minorias de modo sequencial (opositores, doentes judeus,…). Fechada na sua bolha, mais ou menos metafórica, a maioria desligou-se enquanto as minorias eram afetadas. Mas, a maioria é composta por minorias, não apenas ideológicas ou raciais. Um dia chegaria a vez de alguém da maioria ter a Gestapo à porta. De forma similar, os problemas dos outros (económicos, sociais, poluição,…) também irão se alastrar para os grupos que vivem na aparência da segurança e conforto. Depois, será a humanidade, mesmo os ricos que respiram o mesmo ar e dependem do mesmo planeta para viver.


Temo que, no mesmo sentido, a humanidade entre em nova espiral de autodestruição, face a políticas e ações extremas de exploração e artificialização de toda a natureza. Prevalece um modelo económico focado no crescimento contínuo baseado no PIB, por conta da exploração intensiva da Natureza. A economia cresce, mas a natureza morre. Esta tida como sendo objeto de propriedade de (alguns) humanos como se de qualquer ativo se tratasse. Não será difícil com os movimentos políticos e sociais extremistas que estão a dominar países importantes (EUA, China, Rússia, Brasil, Turquia, India) sem respeito pela realidade natural, mas apenas por realidades artificiais não sustentáveis (como são o dinheiro ou a propriedade mal usados). Os humanos não são desligados da natureza, fazem parte dela, que realmente domina todos. Perante a destruição promovida pela humanidade, a natureza poderá proceder à eliminação do vírus que a destrói – a humanidade. Não é mais o que fazemos com o COVID-19.


Na realidade, não estamos isolados em bolhas. Vivemos em sistemas (natural, social, económico) cujas unidades trocam entre si energia, matéria informação, bens, dinheiro. São fluxos que se entrecruzam e todos são afetados de forma positiva (sinergias) ou negativa (caos). Os humanos criaram uma espécie de heurísticas para ter vantagens em atingir os fins pessoais e da tribo. Assim, não vemos como é maltratada a natureza, os animais que comemos em abundância, o lixo que geramos, os processo como são produzidos bens e energia.

Vivemos num mundo de aparências e ilusões que nos julgamos isolados, protegidos e imunes aos males do mundo. Porém, hoje vivemos mais próximos de todos do que no passado (as distâncias no mundo são mais curtas em tempo de viagem), existem mais interferências culturais, informacionais e até virais. Os humanos vivem presos numa roda materialista de consumo e pela posse de bens. Só que o planeta não suporta tal economia de produção e lixo intensivos quando tem de servir mais de sete mil milhões de humanos. Se não reagir entretanto, o planeta morre antes disso. Ou, em alternativa, extingue os humanos antes de se renovar novamente. Os paradigmas humanos atuais servem cada vez menos para sobreviver.


Para evitar o sofrimento inútil, a humanidade tem hoje acesso a soluções que permitem ultrapassar os riscos da sua própria extinção. Em primeiro lugar, em vez da ilusão dos sentidos e do senso comum (fácil de manobrar por políticos e religiosos habilidosos), a humanidade tem a Ciência e a Engenharia já com soluções sustentáveis baseadas na realidade mesmo que não visíveis. O sistema económico deve deixar de se basear na propriedade privada individual, mas na partilha por veículos de base institucional (como a titularização). Pode mesmo repescar-se conceitos antigos como o Bem Comum, mas regulado. Em respeito e preceito poderia mesmo considerar-se certas unidades da natureza (como uma floresta) como entidades, não passíveis de ser possuídas e destruídas por alguém, mas sobretudo jurídicas tal como são as empresas.

Existe um setor relevante que deve prevalecer, já que em primeiro lugar somos seres físicos dependentes de ambientes, sobretudo físicos. É o Imobiliário. Na sua função principal deve relacionar o Homem com o Meio Ambiente. E, numa economia baseada em intangíveis, carece de reinvenção e inovação, pois o atual paradigma configura-se como um dos mais destrutivos e consumidores de recursos naturais.


Para bem da humanidade e da natureza em que vive, existe um imenso mundo a explorar, mas terá de ser fora do status quo instalado. Como poderemos mudar?


Lisboa, 14 de Julho de 2020


João Correia Gomes

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