• João do Rego Gonçalves

A IMPORTÂNCIA DA INFRAESTRUTURA NO INCENTIVO AO USO DA BICICLETA



Um estudo recente sobre o uso da bicicleta na cidade de Lisboa demonstra a importância da existência de uma infraestrutura segura no aumento da utilização deste meio de transporte nas cidades.




Os dados do último inquérito à mobilidade realizado pelo INE em 2017 (Mobilidade e funcionalidade do território nas Áreas Metropolitanas do Porto e de Lisboa 2017), revelam que a utilização da bicicleta nas deslocações diárias dos residentes nas Áreas Metropolitanas do Porto e Lisboa tem ainda uma fraca expressão – 0,4% e 0,5%, respetivamente, do total de deslocações diárias – quando comparada com a média na União Europeia - cerca de 8% (dados de 2014). Por outro lado, as deslocações em automóvel privado representam, sem grande surpresa, 67,7% e 58,9%, respetivamente, do total de deslocações efetuadas diariamente nas Áreas Metropolitanas de Porto e Lisboa.


Podemos concluir que a mobilidade ciclável em Portugal está ainda numa fase embrionária e, como tal, a mudança da repartição modal no sentido do aumento do peso dos modos suaves e do transporte público nas deslocações diárias, em detrimento do uso do transporte individual motorizado - um dos eixos fundamentais da descarbonização dos transportes em meio urbano – exige uma implementação coordenada de várias medidas de incentivo e promoção do uso da bicicleta, tanto ao nível do planeamento urbano e das infraestruturas, como da gestão da mobilidade. Embora constitua um enorme desafio nos meios urbanos, em que o espaço disponível é, porventura, mais limitado, e nos quais a rede viária foi sendo, durante décadas, adaptada ao uso do automóvel, um dos grandes incentivos à utilização da bicicleta passa por garantir a segurança dos seus utilizadores.



Ciclovia segregada na cidade de Cupertion, Califórnia, EUA


Este foi um dos principais resultados de um estudo realizado por três investigadores da Universidade de Lisboa (Rosa Félix, Paulo Cambra, e Filipe Moura). No artigo publicado na edição de junho do jornal Case Studies on Transport Policy, foi analisada a relação entre o aumento do número de viagens realizadas em bicicleta na cidade de Lisboa, entre 2016 e 2018, e a construção de ciclovias segregadas e a implementação de um sistema público de partilha de bicicletas.


Em Lisboa, o ponto de viragem deu-se em 2016 com o anúncio de um investimento significativo por parte do município com o objetivo de resolver os constrangimentos enfrentados pelos utilizadores da bicicleta na cidade. No ano seguinte, Lisboa deu inicio à implementação de um ambicioso plano de construção de cerca de 100 km de ciclovias segregadas nas principais vias de tráfego. Em simultâneo, foi inaugurado o sistema público municipal de partilha de bicicletas, com doca, a GIRA, que contava com 1400 bicicletas, a maior parte com assistência elétrica.


A metodologia utilizada neste estudo permitiu aos investigadores aferir a importância de cada uma destas intervenções (construção de infraestrutura e sistema de partilha de bicicletas) no aumento do número de viagens realizadas em bicicleta. Para tal, foram recolhidos dados de partida relativos ao ano de 2016, em sete zonas: três zonas centrais onde houve construção de ciclovias segregadas, duas zonas centrais adjacentes às zonas onde houve construção de infraestrutura e duas zonas de “controlo” nas quais não ocorreram intervenções de melhoria da infraestrutura. Os dados foram novamente recolhidos, nestes mesmos locais, em 2017, após a construção da infraestrutura e em 2018, após o lançamento do sistema de partilha de bicicletas.


O impacto combinado de ambas as intervenções foi claro. Nas três zonas centrais o volume de ciclistas na hora de ponta aumentou cerca de 17 vezes, entre 2016 e 2018, passando de cerca de 19 ciclistas por hora para 325. Se a estas três zonas juntarmos as duas zonas adjacentes o aumento do número de ciclistas foi, em média, de 817%. Nas zonas de controlo, sem qualquer intervenção direta, embora também se tenha verificado um aumento do número de ciclistas, este não foi além dos 69%. Globalmente, os dados sugerem uma mudança cultural na cidade de Lisboa relativamente ao uso da bicicleta.


Nas três zonas à esquerda, que beneficiaram da construção de ciclovias segregadas e da implementação do sistema de bicicletas partilhadas, verificou-se um aumento significativo no volume de ciclistas/hora, entre 2016 e 2018, muito acima do verificado nas duas zonas de controlo, mais à direita no gráfico, que não beneficiaram diretamente de nenhuma destas medidas (Case Studies on Transportation)



Embora a importância de ambas as intervenções no aumento do uso da bicicleta seja inegável, de acordo com o estudo, a criação da infraestrutura foi a maior responsável por este crescimento. Nas cinco zonas centrais (três nucleares e duas adjacentes), os investigadores consideram que a infraestrutura foi responsável por um aumento de 3,5 vezes no volume de ciclistas, enquanto que o sistema de bicicletas partilhadas terá sido responsável por aumento de apenas 2.5 vezes.


Na aferição da influência isolada de cada uma das medidas, os dados obtidos nas duas zonas centrais adjacentes são especialmente reveladores. Numa destas zonas, que já contava com uma ciclovia segregada, o sistema de partilha de bicicletas contribuiu de facto para o aumento do número de viagens em bicicleta. Mas, na outra área central adjacente, na qual não existia qualquer ciclovia segregada, o volume de ciclistas diminuiu entre 2016 e 2018, levando a crer que os utilizadores da bicicleta que já utilizavam esta via “migraram” para as novas ciclovias onde existia maior conforto e segurança, mesmo que isso tenha significado um desvio nos seus percursos habituais e mais diretos.


A conclusão deste estudo é que a facilidade de acesso à bicicleta não foi, isoladamente, suficiente para convencer os lisboetas a adotarem este meio de transporte nas suas deslocações diárias. O sentimento de segurança falou mais alto. Nos locais onde o sistema de partilha foi implementado, mas continuou a não existir uma infraestrutura segura, o aumento no volume de ciclistas não foi significativo. Estes dados “corroboram a necessidade de ultrapassar as barreiras associadas à perceção da segurança … como requisito para aumentar os níveis de utilização da bicicleta”, afirmam os autores.

#mobilidadeurbana #mobilidadeciclável #infraestrutura



João do Rego Gonçalves

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