• João Correia Gomes

COVID-19: O DESAFIO DE RESPEITAR A INCERTEZA

Atualizado: Mai 12



Os humanos detestam a incerteza. Não a conseguem avaliar. Tendem mesmo a ser inconscientes quanto ao acaso num ambiente que afinal não é tão regular assim. Nassim Taleb conclui mesmo que “preferimos o que é visível, o que está enraizado, o que é pessoal, tem a forma de uma narração e é tangível; desprezamos a abstração”. A natureza que somos, no planeta que habitamos, apenas segue padrões regulares; mas não funciona como mecanismos regulares (como relógios). Assim, por exemplo, para projetar o futuro, como na avaliação do risco, usamos o que é tangível mensurável, como os dados do passado ou flashes do momento que flutuam aleatoriamente na Internet, por exemplo.

No primeiro caso, confunde-se a economia como infindáveis ciclos de eventos similares que se repetem. Neste pressuposto, desenvolvem e aplicam-se modelos matemáticos, normalmente de base probabilística, suportados em dados do passado para justificar o futuro. Dada a sua perfeição aparente, são acreditados como infalíveis, e conduzem mais tarde ou cedo para a ruína. Foi o que aconteceu com o modelo LTCM.




No segundo caso, consome-se demasiada energia e tempo (o que leva ao stress) a analisar dados que flutuam no momento, erráticos, sem consistência, decerto originados pela emoção ou a ilusão. Acontece com os preços no mercado que flutuam na Internet. Estes dados são apenas ruído, inconsequentes no longo-prazo. Não conseguem justificar tendências e mesmo estas são interrompidas por eventos imprevistos.


Numa ótica de longo-prazo, os eventos são não ergódicos. O sucesso tende a ser um estado efémero, por vezes mais devido à sorte do momento e não tanto a sustentadas aptidões do operador ou investidor. A realidade é recheada de eventos que romperam as melhores projeções, apenas baseadas no passado. Não são raros os eventos singulares que alteraram a História nos processos tidos como certos como, por exemplo, o ataque às Torres gémeas em 9 de Setembro de 2001.




Claro que a análise do risco não pode desprezar o passado. Este é essencial para evitar erros e falhas do passado, requer a experiência adquirida e o capital de conhecimento. Não pode excluir-se a análise de riscos sobre eventos conhecidos por modelos probabilísticos.

Em complemento, deve aplicar-se um modelo distinto com medidas preventivas. Serve para limitar a ocorrência de graves eventos negativos, com custos muito elevados, embora raros ou específicos. Emerge aqui o conceito de risco específico. Este tem uma abordagem distinta, não estatística, e mais cirúrgica. A abordagem poderá ser através de uma heurística baseada na observação; na indução que deriva da experiência profissional; ou, num quadro padronizado de medidas preventivas (Gomes, 2018), ou similar ao processo de segurança da aviação civil.


Obviamente, mesmo estas medidas serão sempre insuficientes para prevenir os eventos muito raros e inesperados. São os casos que Nassim Taleb designa por cisnes negros, ligados ao acaso. O COVID-19 não pode ser considerado um cisne negro, pois não é um evento inesperado, pela simples razão que há muito existiam sinais para tal situação. No início desprezou-se a sua importância, levando a reagir com remendos e medidas tardias, logo mais caros. Continuam a não faltar avisos de próximos eventos similares a emergir no futuro. Poderá ser uma guerra da natureza com a humanidade que é consumidora e destruidora sem controlo.


O inesperado surge pelo efeito paralelo que a pandemia provoca na economia. A prosperidade atual está ligada aos fluxos entre os seus agentes (seja de informação, de bens ou pessoas). A dimensão desses fluxos no mundo liga com a capacidade na criação de riqueza. Quanto mais agentes interagem na economia global tanto mais ocasiões para o surgimento de situações de acaso. Desta vez o vírus usou uma fraqueza do modelo económico global, pela disseminação e pelo corte do fluxo de pessoas obrigadas ao isolamento. Afeta a economia que depende deste tipo de fluxos, como o turismo ou do trabalho presencial.


Nesta crise, o acaso emerge como consequência da crise epidémica. Por esta via, poderá conduzir a uma catástrofe económico-financeira imprevisível, decorrente da interrupção de fluxos que geram riqueza. Se prolongar demais poderá abrir uma espécie de “Caixa de Pandora”. Pode levar ao desespero que germina revoltas sociais. Podem revelar-se as atitudes que levaram a conflitos mundiais passados como o egoísmo, mesquinhez ou a ganancia de uns sobre outros.


Em resultado de tais interações negativas, como um efeito dominó, poderá desencadear uma sequência de conflitos que podem agravar problemas ou limpar as ineficiências do sistema socioeconómico atual. Sem controlo nem cooperação, a onda poderá mesmo destruir bons modelos instituídos, como o Estado Social ou até a União Europeia.


Provavelmente, o futuro não será nada como o imaginamos.


Lisboa, 9 de abril de 2020


João Correia Gomes


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