• Edgar Carrolo

A CULPA NÃO MORRE SOLTEIRA – O LANÇADOR VEGA VOLTOU A FALHAR

O mais pequeno lançador europeu voltou a voar depois da missão realizada com sucesso em Junho de 2020.


Há quase 1 ano, no dia 17 de Novembro, ocorreu mais um lançamento do lançador europeu VEGA, depois da sua retoma no passado mês de Junho, com uma missão que fez história, e após uma longa ausência como por mim anunciado num dos meus artigos.


Se o penúltimo lançamento, tinha sido um respirar de alívio, após o primeiro acidente em voo registado pelo mais pequeno lançador da família Europeia em mais de 8 anos de operação (e 14 lançamentos com sucesso consecutivos), este último serviria como uma espécie de confirmação, o que infelizmente não aconteceu…


VEGA em posição vertical na estrutura de lançamento

Este lançamento trazia a bordo dois payload. O SEOSAT-Ingenio, um satélite da Agência Espacial Europeia (ESA) em representação da Centro Espanhol para o Desenvolvimento de Tecnologias Industriais (CDTI) era um deles. Este satélite foi o resultado de cerca de uma década de desenvolvimento, com um investimento total de 200 milhões de euros, e 75% de tecnologias nacionais incorporadas, pelo que era sem dúvida um motivo de orgulho por parte da Engenharia Aeroespacial Espanhola. O satélite tinha como missão a observação terrestre, em especial o território Espanhol, com um varrimento de qualquer ponto da terra em apenas 3 dias e de todo o território espanhol 8 vezes por ano.


Payload integrada no interior da carnagem do VEGA

A resolução da câmara era o estado da arte de tecnologia espacial espanhola, permitindo uma imagem com uma amplitude de 60 Km, com cada pixel representando 2,5m; isto na prática quer dizer que um carro no solo podia ser visto com tudo o detalhe a partir de uma imagem capturada a 670 km de altura. Estas fotos iriam ser usadas posteriormente para cartografia, agricultura, gestão de recursos naturais (para controlo de barragens e bacias hidrográficas). Na prática, estas imagens podiam alertar para incêndios, indicar o nível de nutrientes dos cultivos para determinar a quantidade de fertilizante a aplicar e detetar construções ilegais.


"SE O PENÚLTIMO LANÇAMENTO, TINHA SIDO UM RESPIRAR DE ALÍVIO, (...) ESTE ÚLTIMO SERVIRIA COMO UMA ESPÉCIE DE CONFIRMAÇÃO, O QUE INFELIZMENTE NÃO ACONTECEU…"


Satélite SEASAT-Ingenio em montagem nas instalações da Airbus em Espanha

Juntamente com a missão espanhola, o satélite francês TAREMIS integrou igualmente o lançamento. Com uma massa de 175 quilogramas e um custo de cerca 155 milhões de Euros, este satélite, desenvolvido pelo CNES (Centre Nationale D’Etudes Spatiales), tinha como objetivo estudar com detalhe a radiação eletromagnética existente a uma altitude entre os 20 e 100 km e que dá origem a trovoadas.


Satélite TARENIS

No entanto, o que fica para a história, é que nenhum destes satélites pôde realizar a sua missão…


Na madrugada de 17 de Novembro, o voo Nº17 do VEGA deu o seu início, e após um curto período em que operou de acordo com o previsto, foi detetado um desvio de trajetória no último motor a entrar e funcionamento, AVUM, de combustível líquido. As análises preliminares aos dados telemétricos, que são recolhidos em tempo real durante o voo, permitiram apontar imediatamente um suspeito: o TVC (Thrust Vector Control), que tem como função ajustar a inclinação do propulsor, e consequentemente alterar a trajetória de voo.


Uma comissão independente foi de imediato criada de forma a apurar ao detalhe as causas da falha catastrófica. Passado cerca de um mês após o acidente, foi divulgado o relatório com a confirmação das causas da falha, assim uma explicação do que correu mal ao nível do processo de integração e como e porque é que a anomalia não foi detetada em terra. A anomalia não se ficou a dever a qualquer erro de design ou de qualificação de algum componente integrante do lançador, mas sim a um erro de integração do TVC, nomeadamente na inversão da cablagem dos atuadores eletromecânicos que permitem acionar o TVC, o que inverteu os comandos que eram fornecidos, resultando na degradação da trajetória. Foi igualmente referido que o erro não foi detetado devido a inconsistências entre requisitos específicos e controlos prescritos.


O relatório refere por fim um conjunto de recomendações a serem implementadas pelo fabricante do motor, a italiana AVIO, onde se inclui um conjunto de inspeções adicionais e teste nos próximos dois voos, assim como um conjunto de ações permanentes, a serem implementadas ao nível dos processos de fabrico, integração e verificação.



A conhecida expressão popular “O seguro morreu de velho”, nunca foi tão verdade…


Aquando do acidente fatal do VEGA em 2019, que traria para órbita o satélite militar dos Emiratos Árabes Unidos Falcon Eye 1, foi reclamado o maior valor de sempre por um satélite a uma seguradora; 389 milhões de euros! Antes deste acidente, já se tinham somado perdas no valor 160 milhões pela falha de um lançador americano em Janeiro, resultando na perda de um satélite de observação terrestre.


Ao contrário da indústria automóvel, os seguros em Espaço não são obrigatórios por lei, pelo que apenas 60% dos satélites lançados são segurados, ainda que se tenha verificado uma tendência de descida dos prémios das seguradoras devido ao aumento da fiabilidade dos lançadores e crescente competição entre companhias de seguro.


Integração do payload no topo do lançador

Naturalmente, após esses acidentes em 2019 e devido ao mercado relativamente pequeno que a indústria Espacial representa para as seguradoras, os prémios subiram em flecha, de forma a colmatar as perdas acumuladas no setor.


Esse pode ser o motivo pelo qual nenhum dos satélites irremediavelmente perdidos em Novembro do ano passado tenha sido segurado, pelo que nenhum do investimento realizado é passível de ser recuperado. Levanta-se então a questão: será que não faz sentido criar legislação no sentido de minorar perdas em caso de acidentes Espaciais e proteger os investidores (muitos deles entidades públicas financiadas por todos os contribuintes)? Esta questão torna-se cada vez mais importante, em especial se tivermos em conta que se está a verificar um consistente aumento do número de lançamentos e a democratização do acesso ao Espaço, com períodos de desenvolvimento mais curtos e onde a qualidade pode ser descorada.


Fatores Humanos – o bode expiatório para as causas das falhas em Engenharia


O erro que originou a falha catastrófica do VEGA em Novembro teve claramente uma origem humana, o que não gera surpresa, pois este continua a ser porventura nos dias de hoje, o grande responsável de falhas detetadas. No caso do VEGA, o erro que originou à destruição de mais de 300 milhões de Euros de tecnologia deveu-se à inversão na assemblagem de dois cabos. O leitor deve estar ainda neste momento a perguntar-se como foi possível esse erro não ser detetado com todos as inspeções e testes que são efetuados em Terra? Bom, é de fato até para mim que trabalha na indústria, e mesmo após ler o comunicado oficial compreender. Todos sabemos no entanto, que os erros humanos são frequentes, e a indústria Espacial está bem ciente disso, daí investir uma quantidade de recursos muito significativa para diminuir ao máximo a prevalência do erro, e quando ocorre, que este tenha o menor impacto possível na execução da missão. Ainda assim todos os procedimentos, testes, e sistemas redundantes não são suficientes para eliminar o erro da equação.


Nos dias de hoje já começa a haver uma grande consciência empresarial para os fatores humanos e como estes podem afetar o comportamento no trabalho, na saúde do indivíduo e na segurança, pelo que a questão está mais no lado da definição das ações corretivas a um erro originado por fatores humanos.


Estudos indicam que a falta de treino representa apenas 10% de todos os erros for fatores humanos, no entanto esta é a receita mais frequente para “resolver” o problema, quando muitas vezes não é a verdadeira causa do mesmo. A questão pode ser bem mais complexa do que isso, mas a necessidade de circundar rapidamente o problema é bastante tentadora…


O especialista em análise de falhas George Bernstein vai ainda mais longe e afirma que na área geográfica onde ele trabalha, a causa mais comum para falhas é o não seguimento dos procedimentos existentes. Segundo a sua experiência é necessário ir mais longe e perceber se o problema é sistémico num único individuo, o que pode ser sintomático de um treino deficiente, ou se se estende a diversos indivíduos, o que sugere que o procedimento não é claro. Em suma, quando o relatório do departamento de qualidade refere o retreinamento como ação corretiva, precisam de o fazer com toda a certeza, porque tal declaração tem outra implícita: que o treino realizado até aí não era eficaz. No limite, uma má caracterização da causa da falha, pode resultar numa agudização da não conformidade já existente. Outras causas comuns relacionadas com fatores humanos são:


· Erros nos procedimentos;

· Erros de engenharia;

· Falta de treino, ou ineficaz;

· Erros na supervisão;

· Comunicação deficiente.


"TER UMA EQUIPA DE INVESTIGAÇÃO MULTIDISCIPLINAR COM VISÕES DISTINTAS TAMBÉM É APONTADO COMO FUNDAMENTAL PARA UM CORRETO ENQUADRAMENTO DA FALHA"


Durante a investigação da falha é de facto fulcral ir até as camadas mais profundas da organização, e é aí que muitas investigações falham, pois deixa de ser simples medir o resultado das ações corretivas propostas. As questões culturais das organizações das empresas são um exemplo claro de uma área cinzenta de uma investigação, onde o impacto no desempenho dos indivíduos que dela dependem é muito significativo, mas muito complexa do ponto de vista de mensurabilidade. A estratégia de contacto direto com múltiplos indivíduos dentro da organização, que são especialistas nas suas áreas pode ser muito eficaz. Deste modo, a investigação é cruzada em múltiplos planos de forma a identificar e reduzir os “gaps” que possam existir. Ter uma equipa de investigação multidisciplinar com visões distintas também é apontado como fundamental para um correto enquadramento da falha.


Conhecendo a indústria como conheço, e com o talento que ela reúne, tenho a certeza de que todas as melhores práticas foram seguidas para que o VEJA possa voltar a ter a fiabilidade de outrora e e ser um legítimo competidor no acesso ao Espaço no panorama mundial.


Exclusivo publicado na 1ª Edição Engenho&Arte, Março 2021 - Revista AQUI


Edgar Carrolo

01 Março 2021


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