• João Correia Gomes

COVID-19: O EFEITO MULTIPLICATIVO DE UMA CRISE MODERNA!

Atualizado: Mai 12

Os humanos aprenderam a utilizar heurísticas, ações expeditas para resolver problemas diários sem consumir demasiado tempo e energia, ao contrário de abordagens mais racionalizadas.

Aprenderam a depender do grupo, tribo ou família, para ganhar força pela união e solidariedade. Para tal criou um conjunto de regras, normas e hierarquias a que chamou instituições, às quais o grupo ficava sujeito. Essa abordagem tinha custos de ineficiência (como a burocracia ou autocracias) mas, mesmo assim, é a que tem permitido mitigar custos ainda mais elevados que resultariam do caos e da incerteza.




Como seres sociais, os humanos receiam eventos que afetam a sua tribo de modo inesperado e concentrado. Na rotina diária ou perante eventos inesperados, os humanos precisam de abordagens expeditas. Nesses casos, quase sempre abordam o problema com base em automatismos a partir dos sentidos e das emoções. Quase sempre as decisões não são racionalizadas, mas antes emocionais. É o sistema 1 proposto por Kahneman e Tversky. A abordagem emocional e sensitiva pode ser expedita mas, na reação, pode também conduzir a situações descontroladas.

Se é a tribo que fica afetada, a reação emocional agregada tende a exagerar o resultado. Por exemplo, pode observar-se quando cai em extremo o mercado bolsista ou quando explodem certas revoluções político-sociais. Por exemplo, após 19 setembro 2001, durante um tempo os americanos passaram a viajar mais por automóvel do que por avião, o que provocou mais mortes, agora na estrada, e ultrapassou as mortes devidas à derrocada das torres gémeas de Nova Iorque (Gigerenzer, 2014).


Como ser social, o comportamento de cada humano é influenciado pelos dos outros. Em ambientes humanos, a grande maioria das pessoas tende a influenciar-se e a copiar as mesmas normas até para serem aceites no grupo. Isto sem pensar muito (sistema 1). Num certo grupo, ou tribo, à medida que se intensifica o convívio entre os seus membros, estes tendem mesmo a ter as mesmas ideias e a comportar-se de modo similar e reforçar ideias.

O comportamento agregado tende muitas vezes a exagerar na resposta. Pode segregar os indivíduos tidos como diferentes pela raça ou classe social. Pode conduzir a guerras ou transformar crises económicas em depressões profundas (como o grande crash de 1929).


Quanto maior a dimensão do grupo, cresce de modo exponencial o total de fluxos (informação, bens) entre os mesmos. As sociedades globalizadas do século XXI, ligadas em rede pela Internet ou por intensos fluxos comerciais, dependem de uma enorme matriz de interesses interdependentes, composta pelos diversos humanos e organizações interligados. No passado, as sociedades eram sistemas muito mais pequenos e fechados, mais simples e estáveis, mais controláveis. Mesmo assim, emergiam pequenos eventos inesperados que conduziram a conflitos globais incontrolados e mudaram a História. É o caso do assassinato do arquiduque Francisco Fernando em 1914 que gerou a primeira guerra mundial.


A sociedade global atual é muito mais aberta com milhares de milhões a influenciarem-se mutuamente. Ou, a disseminar rapidamente o Covid-19. Sem instituições vigorosas (a China?) ou apenas consistentes (Coreia do Sul?) podem fluir e disseminar-se sem controlo vírus perigosos. Ou, as ideologias que se baseiam em impulsos humanos devidos a emoções e ao tribalismo (como o populismo de extrema-direita) que podem crescer de modo descontrolado.

O COVID-19 está a gerar uma crise económica e a dispersar-se pelo mundo inteiro. Se forem muito demoradas poderão despontar ao acaso no mundo vários conflitos de âmbito social e politico. Na enorme matriz de influências que depende o mundo atual, estas crises poderão ainda incentivar a emergência de conflitos, agora oportunistas, agravando mais a situação existente. Por exemplo, não esquecer a situação da Coreia do Norte que poderá aproveitar um momento de fraqueza geral para obter vantagem. Não esquecer as alterações climáticas que saíram das notícias.


O mundo globalizado atual depende de todo o tipo de fluxos para prosperar. A troca de fluxos (informação, bens) é em si um mecanismo amplificador. Pode induzir a evolução exponencial de crises em todo o mundo, mas agora com múltiplas facetas a reforçarem-se mutuamente em espirais negativas. A combinação de múltiplos fatores tenderá a exagerar na reação agregada das sociedades que se comportam mais pela emoção do que pela razão.

A solução para mitigar o descontrolo desta crise deve estar nos próprios humanos, seres sociais cooperantes que criaram as instituições para se protegerem. A resposta agregada deve ser humanizada, mas consistente, que procure a união para a cooperação geral. Caso contrário, o egoísmo e o unilateralismo parecem conduzir para o agravamento da crise.


Será desta vez a lição a aprender com o COVID-19?

Lisboa, 7 de abril de 2020


João Correia Gomes


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