• João Correia Gomes

ECONOMIA - DO MODELO EXTRATIVO AO REGENERATIVO

Atualizado: Jan 26


O segredo da abundância não está em matar a galinha de ovos de ouro para a comer, mas antes em alimentá-la para proporcionar a sua procriação. Essa é a verdadeira RIQUEZA!


O que se passa?


O assunto do dia é a pandemia Covid-19. Depois são os acontecimentos políticos nos EUA. Acrescenta-se o degelo nos polos, as extremas e mais frequentes variações térmicas, as excessivas tempestades e furacões, os oceanos que acidificam, a extinção da vida natural, a desertificação em terra (água) e no mar (vida). São sintomas de algo mais grave que está a acontecer. Algo está errado!


Claro que a pandemia é grave pelas mortes que provoca. E, porque agravará a economia. E, depois, seguir-se-ão convulsões sociais. Mas, nem é o pior! O número de mortes devidas à pandemia divulgadas até ao momento são 2,1 milhões, muito menos do que o provocado pela poluição que gera 9 milhões de mortes em cada ano (Lancet, 2017).



Apesar disso, a poluição tem apenas destaque em nota de rodapé no final de um qualquer noticiário televisivo ou jornal. Então, a morte individual por poluição é menos importante do que por Covid-19? Ou, porque são tão rotineiras, tais mortes não vendem notícias, não criam pânico ou polémica?! Ou, porque para resolver a questão da poluição ter-se-ia de alterar o modo de vida e o modelo económico associado? E tal afetaria interesses de quem está bem instalado no atual status-quo? Quem? Seria de quem explora os recursos da Natureza, como a extração de minério, sem qualquer penalização? Seria de quem caça seres vivos e desbarata inutilmente as suas carcaças? Como na pesca industrial que usa técnicas agressivas de arrasto? Ou quem mata rinocerontes para se divertir ou retirar os chifres? Ou quem emite gases venenosos para a atmosfera que todos nós respiramos?


O modelo proporciona enormes ganhos a quem extrai do planeta ou de outros seres, incluindo humanos (veja o filme "Tigre Branco") sem compensar. Usa e abusa do Bem Comum que é da Natureza e não só da humanidade. Pior, destrói a Natureza de modo irreversível. E nós dependemos dela para viver. Opera-se um genuíno ecocídio que poderá extinguir em breve a humanidade. A postura é arrastar para as próximas gerações resolverem ou morrerem. Puro egoísmo! A pandemia preocupa, mas não se percebe que é a Natureza. Esta pode sentir a humanidade do modo como os humanos julgam o coronavírus. É para eliminar!

Os eventos políticos, como a difícil saída de Trump do poder, entre tantos outros eventos semelhantes, fazem parte da mesma equação. Estranho?! O mundo está a evoluir a ritmo acelerado, sendo preciso adotar medidas que travem catástrofes futuras, o que gera a devida contrarreação por parte da população que tem medo do futuro, com nostalgia de um passado que julgam ter perdido, mas já não volta. Surge a oportunidade para indivíduos sedentos de poder para os dominar, manipulando-os, dado o comportamento comum em efeito de rebanho, sem capacidade racional.

Estes fenómenos de domínio são comuns em economias que dependem dos recursos naturais que possuem. Nos EUA a contrarreação está subjacente às indústrias (poluentes) que dependem de fontes fósseis (carvão, petróleo) a montante até às ineficientes indústrias pesadas a jusante que têm gerado elevado desemprego, a população dos revoltados. Mas, pode incluir-se outros contextos como a Rússia de Putin, a Arábia Saudita de uma monarquia absolutista, a Polónia que teme o abandono do carvão, ou o Brasil de Bolsonaro que se apoia na indústria de carne e soja. Ou a India, China, vários países sobretudo em redor da linha do equador. Aí, os povos podem até ser considerados um estorvo.

No outro extremo do espectro está a armadilha da burocracia e do poder público instalados, desligados do mercado, fechados nas suas elites políticas ou administrativas. Também as classes sociais que vivem do guarda-chuva público detestam qualquer mudança que lhes afete o modo de vida confortável, apoiados por sindicatos de visão antiquada que apenas querem manter o status-quo. São economias em que a força criativa da riqueza (mercado) acaba estrangulada pelo poder público que, em simultâneo, consome o rendimento disponível que, assim, é cada vez menor. Ao absorver o rendimento disponível na economia, o poder público tende a disparatar-se em projetos ineficientes ou a reforçar o poder dos seus correligionários. Todavia, na economia próspera, o capital tem de fluir e alimentar como o sangue num corpo vivo. Sem fluxos eficientes, as economias entram num processo contínuo de estagnação, perdem capacidade para se renovar, inovar, captar capital estrangeiro. E, no fim, morrem. São várias as economias presas nesta armadilha da burocracia e de excessivo poder publico, desde estados ricos como a Califórnia ou a França (origem dos coletes amarelos) até ao extremo que é a Venezuela. E quanto a Portugal?


Como tudo começou?

O modelo que prosperou nos últimos séculos foi um capitalismo de base extrativo, digamos que tem um ponto de partida com a publicação da “Riqueza das Nações” de Adam Smith. Acrescentou as práticas ancestrais de extração com origem nas sociedades recolectoras, como é ainda a pesca. O modelo podia equilibrar-se enquanto a Natureza tinha capacidade de se recuperar. Nessa época, tratava-se do pequeno mundo, de poucas nações europeias, que encetavam a exploração intensiva e sistemática de “enormes” colónias ultramarinas. Exploravam tudo desde escravos às madeiras, dos minérios à agropecuária. Havia todo um mundo à disposição para extrair e explorar sem ter de pagar, para vender a pouco que podiam consumir cada vez mais. Sendo poucos, não afetavam muito o planeta, apenas o local onde produziam. Hoje, com razão, todos os humanos são informados pela Internet e anseiam consumir como nos países ocidentais. Mas, tal anseio é impossível de satisfazer. Conduz ao suicídio coletivo provocado pela Natureza em rotura.


Será o coronavírus um sinal da ação da Natureza?


A produção de bens e serviços depende do fluxo de materiais e pessoas. Mas, quando se exclui da mesma a inteligência racional e criativa, a produção tende a ser ineficiente, com desperdício de matéria-prima, horas de trabalho e energia. E a matéria-prima é escassa no único planeta em que temos. Mas, a energia pode ser infinita se for de fontes renováveis.


Como tudo pode mudar?

A tecnologia pode mudar o paradigma de produção, não apenas pela informática, Internet, Inteligência Artificial, Internet das coisas, nanotecnologia, energia de fontes renováveis e tantas outras. A produção poderá até ser mais eficiente, com maior produtividade, se tiver menor intervenção manual humana, libertando-a para efeitos muito superiores se ligados à inteligência e à criatividade. Algumas economias, sem grandes recursos naturais são das mais dinâmicas e prósperas do mundo (Japão, Coreia do Sul, Suíça) porque aplicam atributos mais disponíveis, embora intangíveis como motores de progresso. A economia mais próspera é a liderada pelos fluxos de informação. Incluem o capital, conhecimento, ciência e todos os meios que fomentam, gerem e dominam os fluxos físicos que se tornam subalternos. A exploração bruta de matéria-prima e mão-de-obra não parece ser assim tão eficaz na criação de riqueza como se observa nas economias que dependem mais da extração de matéria e mão de obra, grande parte na zona dos trópicos.


Mas, não é mais suportável o modelo económico baseado em processos lineares do extrair até ao rejeitar na Natureza. É certo que nos habituámos a destruir, mas tal não será a solução que alimentará e vestirá mais de sete biliões de humanos. Como funciona a própria Natureza, o processo terá de ser cíclico, renovar-se em contínuo, atrasar a variação entrópica da matéria, não da energia solar. O planeta é um sistema quase isolado quanto à matéria, mas não existe limitação para a exploração da energia do sol e criação humana.


Este é grande desafio da engenharia do século XXI.


Embora pareça ser ilusão para a mentalidade educada para o material, mas é possível uma abundância infindável (Figueres e Rivett-Carnac, 2020) se focada na regeneração contínua da natureza, não na sua destruição irreversível. Combina com fatores infinitos e disponíveis como a inteligência (produtiva, adaptativa), criatividade, solidariedade, inovação, cooperação. São atributos tão-só humanos, mas de alto valor, embora minorados pela maioria das economias, quase todas pobres, outras decadentes.


A riqueza e a produtividade sempre dependeram de energia disponível e barata. Trata-se de outra disponibilidade abundante, pois a fonte primordial é o sol, além das que emergem os fluxos de ar (vento) ou da água, do calor da Terra. Apenas o petróleo e o carvão não passam de energia solar sintetizada pelo tempo e depositada no subsolo.


Portanto, não há outra opção. Uma nova economia terá de emergir. O seu mantra aplica o prefixo “re” em palavras como regenerar, recuperar, restabelecer, replantar, reabilitar, reutilizar, render e rentabilizar (em vez de vender).


Requer-se um modelo económico que não se baseie tanto na extração, seja de recursos materiais ou até de seres humanos. Tem de ser muito distinto daquele que conhecemos. Com base na teoria dos sistemas (Gomes, 2018), a partir do que quase nada é material poder-se-á fazer muito, com abundância. Basta observar e copiar a Natureza que, a partir da fisica quântica e o ADN, constroi todoo mundo físico e a vida.

A tecnologia atual já pode ajudar e vencer os velhos processos produtivos ainda instalados. Quanto ao potencial efetivo, encontra-se nos próprios humanos e não é a força muscular. Antes é a cooperação, o conhecimento e a criatividade, cujos resultados podem ser transferidos e armazenados em dados e informação (bits). Como a nanotecnologia e a biotecnologia podem alterar paradigmas e conceitos de produção e produtos. A produção poderá concentrar-se nas cidades, até mesmo a produção de alimentos, e libertar território para que a Natureza recupere e se equilibre.


Veremos…


Lisboa, 25 de Janeiro de 2021


João Correia Gomes


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