• Joaquim Nogueira de Almeida

UMA PISCINA PERTO DO CÉU

Atualizado: Ago 21



HÁ OBRAS QUE SÃO UM MARCO TANTO NA ARQUITECTURA COMO NA ENGENHARIA.

O SKY PARK DO COMPLEXO MARINA BAY SANDS EM SINGAPURA, É UMA DESSAS OBRAS E HÁ UM PORTUGUÊS POR TRÁS DESTE PROJECTO, FOMOS ENTREVISTÁ-LO E SABER COMO FOI.


O José Cláudio Silva nasceu no Brasil e mudou-se para Portugal com a família aos 3 anos em 1981. Ingressou no Instituto Superior Técnico em 1996 e após a conclusão dos dois primeiros anos de Engenharia Mecânica integrou a primeira turma da então recém-criada Licenciatura em Arquitectura na mesma Universidade. Formou-se em 2003, tendo o último ano sido feito em Barcelona, na Escola Técnica Superior de Arquitectura de Barcelona (ETSAB) da Universitat Politècnica de Catalunya (UPC), ao abrigo do programa Erasmus.


Fomos encontrá-lo em Singapura onde é "Executive Principal" da AEDAS.

Conte-me um pouco o seu percurso até chegar ao Projecto do Marina Bay Sand, fase do Sky Park?

Depois de me formar no Técnico, tive a minha primeira experiência profissional a colaborar três meses com o Arquitecto Paisagista João Nunes (PROAP) e um Professor de Barcelona, Jordi Bellmunt (BiArq), em proposta para concurso para o Parque Alamillo em Sevilha. Ainda em 2003 mudei para Macau onde trabalhei com o Arquitecto Manuel Vicente que tinha sido meu professor no Técnico e com os seus sócios, cerca de um ano e meio. Posteriormente trabalhei por um ano noutro atelier português em Macau antes de mudar para a Aedas em Hong Kong, em 2006, motivado pelo interesse na experiência de trabalhar num atelier internacional.

No período em que estive na Aedas em Hong Kong trabalhei no Projeto da Torre de Hotel e Serviced Apartments “St Regis” para o Venetian Sands – Cotai Central. O Sands era um cliente particular, bastante exigente e o Projecto era de grande dimensão e executado em regime “fast track”, i.e., tanto o Projecto como a Execução/Construção evoluíam simultaneamente.

A Aedas, entretanto, ganhou o Projecto para o Marina Bay Sands, em Singapura, onde o atelier local teve que crescer e era fundamental envolver arquitectos familiarizados com os processos e a exigência do Cliente “Sands”. Em 2008 fui desafiado a integrar o projecto em Singapura para o mesmo cliente e achei que seria uma boa oportunidade. Era bastante novo mas a Aedas achou que eu tinha experiência e qualidades suficientes para liderar o Skypark.

Pode contar um pouco a história por trás do Sky Park e daquela fabulosa piscina?

O Projecto do “Design Architect” Moshe Safdie & Associates (MSA) era bastante grande e complexo. O terreno, embora extenso, não deixava grande espaço para localizar a piscina do Hotel noutro lugar que não no último piso, acima das torres e a proposta foi mesmo essa, criar uma plataforma no topo das 3 torres de Hotel, que as unia e que seria um Parque com Piscina e Restaurantes. O facto do Projecto separar o Hotel em 3 torres deixava também uma certa permeabilidade visual entre a cidade e o mar em vez de uma “parede” contínua.

O percurso do Arquitecto Moshe Safdie demonstra a sua contínua investigação e refinamento no tema de Torres unidas por Pontes para ser simplista... A forma e a disposição das torres e do Skypark abraçam a baía da Marina. É uma estratégia brilhante e de design excêntrico mas também profundamente racional em geometria, desenho urbano e lógica de valorização imobiliária. A Aedas foi Lead Consultant para este Projecto e “QP” (“qualified person”). Tínhamos sob a nossa responsabilidade tornar aquela visão numa realidade, toda a coordenação, documentação e acompanhamento de obra foi feito sob a nossa liderança. A equipa da MSA trabalhou connosco, no nosso atelier, para qualquer clarificação de “Design Intent”. Eram cerca de 10 Arquitectos a trabalhar com a nossa equipa de cerca de 140.



Conte-nos quais foram os maiores desafios técnicos desta obra?

Os maiores desafios no Skypark foram o tempo de Construção e a Coordenação da Documentação das juntas de movimentação. A piscina, por exemplo, atravessa 4 juntas de movimentação e, para além do efeito de continuidade ao longo dos seus 160m, também tinha que manter um diferencial vertical máximo de 5mm ao longo da direcção longitudinal para que o efeito de “infinity edge” fosse efectivo. Manter o nivelamento das piscinas a curto e a longo prazo eram essenciais para o sucesso do efeito desejado. Outro grande desafio nas juntas de movimentação foi o facto do alinhamento estrutural das juntas em si, não coincidir com o que os arquitectos paisagistas queriam ao nível superficial... Havia um desalinhamento, às vezes de cerca de 1m, entre a junta estrutural e a junta do acabamento no pavimento. Tivemos que detalhar lajes paralelas e pequenos muros abaixo dos acabamentos para transferir a junta superficial. (Ver imagem de um exemplo)

Em relação ao tempo de construção, o facto de ter levado 9 meses desde o primeiro “heavy lifting” da primeira treliça, que ligava a Torre #1, mais a Oeste, à Torre #2, Central, até à inauguração é, ainda hoje, para mim, um feito inacreditável.




Qual é a quantidade de água que a piscina do Skypark comporta e de que forma foi analisada o seu comportamento dinâmico em caso de sismo e o que provoca em termos de esforços nas torres que o suportam?

A piscina tem cerca de 160m de comprimento por 8-10 de largura e 1.2m de profundidade, portanto cerca de 1,750m³ de água. Todo os estudos dinâmicos do Skypark, em respeito a sismos, ventos e vibrações induzidas por utilizadores (human induced vibration), foram feitos pela Arup com o auxílio de consultores e de testes tipo em túnel de vento.





Tendo em consideração a dinâmica imposta ao Skypark, seja pelas acções dos sismos, acções dos ventos, das dilatações ou assentamentos diferenciais, qual foi a solução técnica para unir 3 torres na cobertura?

Esta pergunta talvez fosse melhor fazer aos engenheiros da Arup mas aqui vai a minha descrição com possíveis imprecisões...

Embora não fosse um requisito em Singapura, o Skypark foi desenhado para resistir a sismos, para além da acção dos ventos, estes com períodos de recorrência de 1, 10 e 50 anos.

As Pontes que ligam as torres são compostas por 3 treliças cada, que assentam em apoios(“bearings”) que permitem deslocamento vertical e horizontal relativo das treliças. Nas treliças centrais, os “bearings” da Torre #1 e da Torre #3 são fixos. Nos dois lados da Torre #2 os apoios permitem movimentos longitudinais controlados. Os outros apoios permitem movimentos controlados longitudinais e transversais. Na Torre #3, as treliças laterais que ligam à Torre #2, assentam nos “braços” (“box girders”) que suportam a plataforma em consola e contribuem para a estabilidade dessas estruturas.





De que ordem de grandeza são os deslocamentos diferenciais previstos entre as várias torres, e obviamente na plataforma Skypark?

Os deslocamentos verticais foram calculados para assentamentos diferenciais das fundações num horizonte de 30 anos e o valor máximo definido foi de cerca de 150mm.

Os deslocamentos horizontais foram calculados para dois tipos de acções, ventos (período de recorrência de 50 anos) e sismos. Devido aos sismos, o espaço entre estruturas nas juntas entre as Torre #2 e as duas pontes, a Este e Oeste, é cerca de 1metro enquanto que nas juntas da Torre #1 e Torre #3 é de um poc menos de meio metro. Em relaçãos aos ventos, o espaço entre estruturas não é necessário ser tão grande daí se ter detalhado uma porção da estrutura a que se chamou “sacrificial”, ou seja, em caso de sismo tipo safe shutdown, pode colapsar. Esta estratégia permite melhor detalhe superficial – acabamentos – sem que constituam perigo para os utentes e sem se deteriorarem com acções dos ventos e sismos menores. Somente em caso extraordinário de sismo com período de recorrência muito maior, se admite que os acabamentos sejam danificados e eventualmente haja colapso da parte sacrificial da estrutura.

Quem é que Projectou as estruturas do Skypark e das Torres do Casino marina Bay? Que tipo de estruturas foram usadas (betão armado, préesforçado, Aço, Mista Betão-Aço, etc)?

A Arup foi a firma de Engenharia de Estruturas que Projectou o MBS. O Skypark foi inicialmente Projectado para ser um misto de betão armado, no enfiamento das torres, e de estrutura metálica, entre as torres, nas “pontes” e na consola, o Observatório. A consola é suportada por dois “Braços” laterais, as “box girders”, tensionados por cabos metálicos.

Durante a construção, devido a constrangimentos de duração de obra, também o enfiamento das torres foi modificado para estruturas metálicas, pré-fabricadas e de rápida montagem. As lajes são em “bondek” (lajes de cofragem colaborante).




Foram efectuados testes de impermeabilização da piscina? Que incluíssem excitações dinâmicas da estrutura?

O casco da piscina é todo em aço inoxidável e foi calculado e construído para resistir aos movimentos previstos. Somente em caso de sismo de grande intensidade é que a junta de movimentação da piscina poderá colapsar, provocando danos calculados. Para ajustes aos assentamentos diferenciais previstos para 30 anos, mantendo a absoluta horizontalidade como referido anteriormente, o casco da piscina está assente em 800 suportes hidráulicos, ajustáveis.

Foram efectuados outros testes, nomeadamente de deformações e deslocamentos?

Foram feitos testes para o conforto dos utentes e foram impostas restrições de operação como por exemplo condicionando eventos musicais na consola de modo a evitar o movimento sincronizado causando desconforto e potencial pânico. Foi também instalado um “tuned mass damper” na extremidade da consola para limitação de movimentos verticais da estrutura somente para conforto humano.




Foi prevista alguma forma de monitorização estrutural e/ou outra, ao longo do tempo? Tem tido acesso a essas avaliações depois da construção do Marina Bay há cerca de 10 anos?

Toda a estrutura do Skypark for detalhada e desenhada para poder ser facilmente inspeccionada. É uma especificação em Singapura e a inspecção deve ocorrer a cada 5 anos. Não tenho acesso às inspecções, nem aos resultados.

Como é que um Arquitecto encontrou a necessária bagagem técnica para gerir este Projeto?

Acredito que todas as experiências contribuíram. Desde os 2 anos de engenharia mecânica, ao curso de Arquitectura no Técnico, ao ano na ETSAB em Barcelona, à experiência com o João Nunes e Jordi Bellmunt, ao trabalho em ateliers super activos como o do Manuel Vicente em Macau onde os 5 arquitectos tinham que fazer um pouco de tudo, até à experiência num ambiente internacional e super exigente como o de Hong Kong num Projeto “fast track” e bastante grande como o Macau Central...





Qual é a sua posição em termos hierárquicos na empresa em que está, a AEDAS?

Neste momento sou “Executive Principal” que implica também, na Aedas, ter uma percentagem de acções da empresa em Singapura.


Com o COVID quais foram as principais alterações na continuidade de trabalho da AEDAS?

Em Singapura implementámos medidas para trabalhar de casa. Tivemos que fazer um upgrade em termos de software e hardware de maneira a que todo o staff tivesse acesso a um computador que permitisse trabalhar de casa.


O Teletrabalho é comum na AEDAS?

Teletrabalho não era comum mas penso que teremos que re-pensar as nossas dinâmicas de trabalho para eventualmente poder implementar teletrabalho parcial mesmo quando a situação se normalizar. Por enquanto (Julho de 2020), aqui em Singapura, ainda temos que trabalhar a partir de casa.


Que politicas poderão ter continuidade?

Acho que o teletrabalho, horário de trabalho flexível, redução de trabalho de produção no atelier terão continuidade.


Tendo em conta a crescente digitalização da Arquitectura, pode explicar em que estado está a AEDAS (3D, BIM, MSProject/Primavera, Max Studio, etc, etc) . Que ferramentas é que utilizam?

Na Aedas usamos todo o software acessível no mercado, desde AutoCAD, a Revit, Rhino, Grasshopper, Archicad, Sketchup, 3DMax, etc. Não pomos necessariamente uma limitação no staff e promovemos formações quando necessário. Há situações em que clientes requerem o uso de um determinado software e nesses casos não temos alternativa. Em Singapura, por exemplo, todos os Projectos governamentais têm que ser apresentados em BIM num determinado software. Já tive experiências semelhantes em Projectos privados no Cambodja, Filipinas, Indonésia e Oman.


Pode explicar um pouco o que o atrai no mercado de Singapura e arredores? (Oriente?)

Habituei-me cedo no percurso de arquitecto a não fazer planos a longo prazo. Vir para o Oriente foi uma oportunidade em tempos difíceis para Arquitectos em Portugal. Ficar em Macau além dos 6 meses inicialmente previstos acabou por ser uma oportunidade também e daí em diante. Singapura atrai-me por várias razôes: pela vanguarda no planeamento, design e construção, pela qualidade de vida que a cidade oferece – transportes, escolas, parques, segurança, pela proximidade a tantos pontos de interesse à volta (Australia, Nova Zelândia, China, Vietnam, Cambodja, Filipinas, etc). Também me atrai o facto de poder educar os meus filhos num ambiente tão rico culturalmente e de profunda tolerância de etnicidade, religião, género, orientação sexual, etc.


Quer mencionar três dos Projectos que foram mais importantes para si? E porquê?

O Skypark ‘ Marina Bay Sands pela complexidade, beleza e mediatismo.

A Chipmong Tower, em Phnom Penh, pelo processo, beleza e por ser uma história de simbiose perfeita entre cliente e arquitecto.

A Noble House Tower em Jakarta, por ter sido talvez o primeiro Projetco desenhado e acompanhado até ao fim por mim e pela minha equipa.


Pensa regressar a Portugal em termos profissionais?

Não é uma coisa que pense como um objectivo mas também não ponho de parte essa possibilidade. Estar perto da família e amigos mais próximos é sempre bom.


Tem tido convites?

Não.


O José foi formado no primeiro curso de Arquitectura no Instituto Superior Técnico, depois de ter feito 2 anos de Engenharia Mecânica. Pode explicar a razão desta mudança?

Para mim Engenharia Mecânica e Arquitectura sempre foram as minhas escolhas. Toda a formação do Liceu permitia ir para um ou outro. Sempre achei que a Engenharia Mecânica tivesse uma componente de design forte o que acabou por não se confirmar no IST. As disciplinas que mais me entusiasmaram foram as genéricas, Matemáticas e Físicas, e menos as mais concretas de Engenharia Mecânica.

Quando o Técnico anunciou que abriria o Curso de Arquitectura eu não hesitei.


De que forma o curso de Arquitectura do Técnico é diferente dos outros de Portugal?

(uma vez o Prof Fernando Branco disse-me que era mais técnico. É verdade?)

Não sei dizer com profunda certeza. Acho que o ambiente, o contexto, corpo docente e o currículo fazem do curso bastante forte na componente técnica. Sinceramente não conheço os outros cursos o suficiente para afirmar, com conhecimento de causa, que o curso do Técnico é mais forte ou não nesse aspecto. Mas acho que sim, os professores de Projecto foram escolhidos com critério e deram um carácter próprio e rico ao curso, o Manuel Vicente, o António Barreiros Ferreira, o Mário Sua Kay, o Manuel Salgado, o Vitor Carvalho Araújo, entre alguns outros... Menos ligados a Projecto e a disciplinas Técnicas, mas igualmente importantes no ponto de vista curricular, os professores Ana Tostões, o João Vieira Caldas e a Teresa Heitor deram também grande qualidade e reconhecimento ao curso. São ainda hoje, referências minhas e acredito que para os meus colegas também.


Tendo em consideração a evolução de sistemas de Inteligência Artificial e com a introdução de estudos com Algoritmos de análise e simulação parametrizada, como é que acha que vai ser a evolução da Arquitectura?

Uma das belezas da arquitectura é a de que não existe uma receita. O desenho e desenvolvimento de formas através de software, programação, etc pode ser tão bom ou tão mau quanto o desenhar com uma bic e fazer modelos com cartão reciclado... Com certeza que a tecnologia permite-nos chegar a resultados potencialmente diferentes mas eu acho que nunca vai substituir o papel do lápis, da caneta, do modelo 3D feito à mão.

Pessoalmente confesso que me incomoda quando arquitectos jovens vêm trabalhar comigo e começam logo a desenhar no computador antes mesmo de esquiçar. Eu vejo a Inteligência Artificial, a parametrização, o uso de algoritmos, etc como ferramentas de produção ou auxílio no processo criativo e não num meio de conceber arquitectura. Mas, outra vez, devo respeitar metodologias.


Para terminar, que conselhos profissionais é que daria a um Arquitecto recém-formado em Portugal?

Acho que os arquitectos jovens devem viajar antes de assentar a trabalhar. Devem conhecer outros contextos, outras culturas, outras realidades que com certeza os farão mais versáteis, mais criativos até.


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Joaquim Nogueira de Almeida

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