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  • João Correia Gomes

A INSUSTENTÁVEL CERTEZA EM SOBREVIVER (na Terra)


O quotidiano preenche-nos o cérebro com notícias que se atropelam por nos ganhar atenção desde os media à Internet. São notícias da guerra na Ucrânia, revoltas na China e Irão, uma inundação aqui, um terramoto ali, a sempre triste fome em África, a fuga arriscada de milhões para o Norte rico.


Todavia, na grande maioria das mentes humanas, prevalece a distração fornecida pela indústria do entretenimento, desde o futebol aos aplicativos na Internet. A maioria vive num mundo de alienação ou ilusão abafando a consciência para a transformação que o mundo exige, apenas querem fugir da ideia da morte procurando a tribo e aceitação pelos outros. Mais, como refere a nobelizada Maria Ressa em entrevista na CNN do passado domingo, a população humana é manipulada para ter um comportamento aditivo e não reativo, similar ao produzido pelo cão de Pavlov (efeito).


Acontece que a humanidade enfrenta um problema muito maior a todos os infortúnios atuais do mundo com a morte de tantos infelizes nas atuais guerras, autocracias, fome ou desastres. Aliás, os desastres ecológicos emergem com cada vez mais frequência. São o mais sério aviso do que espera à Humanidade nos próximos tempos.

A Humanidade é levada a distrair-se para ignorar algo que afetaria resultados económicos e financeiros imediatos das elites. Dinheiro fácil é por agora o tema mais importante em comparação com a “eventualidade” que não é conveniente, logo tem de ser ignorada. Todavia, as elites económicas e financeiras são também, hoje em dia, os maiores arautos para investir na mudança, mas que anunciam para nada mudar. Afinal trata-se apenas de um esquema de ilusão como outros já mencionados.

Como mencionado em anteriores artigos meus, a Terra é um sistema vivo que é aberto ao exterior (sol) na troca de energia, mas praticamente fechado na troca de matéria (que não obtém de fora). Como sistema vivo reage aos estímulos que recebe, altera a situação interna para se adaptar às novas condições. Como um sistema não é uma simples máquina (a que é produzida pelo Homem) que responde a poucas variáveis (como o botão que liga e desliga a corrente que a põe a trabalhar num processo simples, com resposta esperada e imediata).

Pelo contrário, depende de imensas variáveis interdependentes, mas não controláveis, que se influenciam mutuamente e cujo resultado final é totalmente imprevisível. Imagine-se como uma matriz de milhões de variáveis únicas e imprevisíveis que se influenciam mutuamente. O cálculo resulta indeterminado. O efeito dessa combinação múltipla e complexa não é imediato, mas lento, e levará a resultado não linear, ou seja muito superior ao estimável pela mente.


A mudança radical no planeta está a acontecer. Pode conduzir à 6ª extinção da vida, banal para a Terra, não para os humanos que têm nela o único sítio para sobreviverem, e sem alternativa para já.


Iludidos nos seus pequenos problemas, os humanos não perceberam ainda que são produto do planeta como sistema vivo, este muito mais inteligente do que os primeiros. Tal como as bactérias, em muito maior número do que as células humanas, fazem parte e viabilizam o corpo vivo, também os humanos são obra do sistema vivo Terra que pretendia Inteligência ativa. Todavia, quando se vir ameaçada, a própria Natureza poderá eliminar os humanos, tal como estes eliminam vírus ameaçadores como o Coronavírus. Nada de mais!


Nunca na História se usou tanto o Planeta vivo e material como fonte inesgotável de recursos para extrair, explorar e matar, que serve como destino aos resíduos nele depositados. As atuais economia e sociedade tornaram-se em máquinas devoradoras que destroem a própria casa com processos produtivos grotescos em aceleração sem limites. Tal abordagem abrange a produção de alimentos, gado, energia, bens e serviços e humanos!

Vive-se uma espécie de autofagia já que os humanos são parte da Natureza que destroem.

No final do festim, no deserto da aridez e morte, o dinheiro e o lucro não terão importância, nem sequer para as elites que se consideram livres destes problemas. Depois, a Natureza continuará em novas formas de vida depois de muito sofrimento gerado por conflitos mortíferos a causar pela falta de ar, água, alimentos e muito veneno.



Para mitigar o sério risco de colapso ecológico, mesmo reverter o processo de extinção, seria preciso de tomar medidas efetivas com muita ação, imediata. E, sem tanta retórica tão comum. Caso contrário, não faltarão múltiplas reuniões COP onde as lideranças aproveitam para passear nos seus jatos de alto consumo (e poluição), conviverem, e não decidirem para não comprometerem as suas agendas e grupos de interesse. Grandes países poluidores, como a China ou a India, não foram hipócritas, logo não apareceram.


Em teoria, o caminho para a reversão do processo de extinção foi já planeado, nomeadamente pelas Nações Unidas através dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS). Atualmente, em todo o mundo organizam-se conferências, ações de formação, programas de televisão para espalhar a Boa Nova. E, isso é bom.

Por enquanto, tais ações meritórias não beliscam no mínimo o padrão da economia atual que ainda mantém os clássicos princípios do Melhor e Mais Elevado Uso (do planeta), este tido como infinito, tal como foram teorizados há 200 anos por filósofos como David Ricardo e outros para o vigente regime económico liberal. A visão do mundo de então, início da era do colonialismo, era muito diferente da atual.


Sendo meritório o caminho de divulgação dos ODS em curso, a sua aplicação é meramente simbólica, pois o ritmo de depreciação natural global decorre numa escala incontrolável. Neste ritmo, o futuro certo será com certeza a nossa extinção e em breve. Um triste caminho de alienados para um fim que pode não ser muito distinto do descrito no filme “A Estrada”.



No modelo económico atual, sobretudo as grandes empresas, usa-se mais o termo “sustentabilidade” como estratégia de marketing para promoção de vendas com uma imagem “cool” ou moderna de preocupação com os clientes e utentes. Muitas vezes, será duvidosa essa postura tão preocupada, quando se observa a ação dessas empresas na realidade, escudadas em esquemas contratuais com terceiros que não cumprem; ou, nos produtos que afinal não diferem muito dos que não cumprem, apenas beneficiam de um ótimo trabalho de comunicação ao mercado.

Para a sustentabilidade poderá pensar-se numa estratégia distinta da que tem sido aplicada. Com os critérios ESG (Environment, Social and Governance) pretende-se que os agentes económicos beneficiem de instrumentos para enveredar o caminho da sustentabilidade. Porém, as abordagens correntes em publicações e reuniões expositivas tendem a focar muito mais o pilar Ambiente dos que os outros dois pilares.


Claro que o ambiente é o pilar essencial para a Natureza saudável que nos sustenta a todos. Mas, não deveria tratar-se apenas do ambiente no sentido natural. Os humanos são equação. Foi a adaptação à diversidade ambiental que permitiu aos humanos distinguir-se na Natureza com a sua evolução fisiológica, cerebral, cultural, social, económica, informacional. Esta é a tese que defendo no livro “Uma nova visão sobre o Imobiliário”.

O imobiliário apenas pode configurar-se como o principal (e essencial) setor entre os demais setores económicos se focar o seu negócio em fornecer e gerir ambientes adequados às atividades humanas. O foco na construção ou na venda de espaço é uma abordagem pobre e ineficaz.


Porém, não haverá qualquer avanço significativo para a sustentabilidade global enquanto o foco for o Ambiente no sentido da preservação natural. Pode ser tema favorito para muitas reuniões e convívios, mas tudo continuará sem mudar efetivamente. Entretanto, com o pouco tempo que resta, já a Humanidade e vida natural se extinguiram.

Ups!! Não há tempo a perder.


O segredo para a sustentabilidade eficaz estará nos outros dois pilares.


A mudança terá de ser generalizada com ação efetiva pela Humanidade. As medidas para o ambiente sustentável serão estéreis se não implicar todos os humanos, mesmo todos.

Apenas toda a humanidade nas diversas culturas, comportamentos, intervenções, modos de consumir e de viver poderá infletir a mudança, sobretudo o mercado e economia para vias mais sustentáveis. Este é o pilar social da sustentabilidade.

Apenas uma nova cultura consciente e ativa quanto ao comportamento ético, cívico, cooperativo e sentido de equidade dos humanos poderá salvá-los. Exige sacrifícios a todos, mas ninguém se dispõe a prescindir dos confortos já adquiridos, embora não sejam universais. Ainda estamos muito longe da meta.


Este enorme passo iria exigir a queda de nacionalismos, extremismos (cultivados nas mentes da população inconsciente ou desprevenida pelas religiões e Internet), autocracias e elites gananciosas e sem escrúpulos. A consciência social que se pretende é um processo muito lento, inicial com a formação nos primeiros anos de vida na escola e família. Essa transformação demorará muitas gerações (e ainda não começou). Parece-me que será um fim ainda mais difícil de atingir do que a emergência da civilização.

Parece-me que esta revolução social não estará para breve.


O processo de aceleração da evolução social depende demais do terceiro pilar – Governance. Apesar da aparência de tudo querer fazer, este talvez seja o pilar mais displicente. Os seus objetivos efetivos tendem a ser distintos dos declarados, estas apenas destinados para ganhar os ciclos eleitorais ou manter o poder das elites, controlando a restante população até ao limite concedido pelas estruturas sociais (hierarquias, castas, grupos de interesse como partidos), instituições e pela tecnologia (a China bate todos os pontos).


As instituições são a base social da coesão e confiança interna de todas as sociedades, em todas as civilizações. Podem ser bem ou mal utilizadas, quase sempre para os fins das elites. A educação e a formação ética e cívica são o fator institucional informal que favorece o melhor comportamento social e económico.

É visível sobretudo nos países do Norte da Europa. No outro extremo, temos as sociedades que não apostam nos fatores informais e formais (este, por exemplo, como o primado da lei), mas antes na coação com aposta na força discricionária de poder (polícia, exército) para explorar sem regras todos os outros que não são elite.


Todavia, é o governo da sociedade que tem de priorizar o investimento nos instrumentos de sensibilização e de consciência da população. Esta politica pode embater nos interesses não democráticos e exploratórios das elites que assim são colocadas em causa.


Como terá de abranger a participação de toda a população humana, o caminho para a sustentabilidade parece ainda bastante longínquo.


Lisboa, 06 de Dezembro de 2022


João Correia Gomes (Ph.D., Mestre em construção, Engenheiro civil)


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