• João Correia Gomes

CIDADE - POLO DO PROGRESSO (parte II)


O Progresso e a Cidade


O sucesso da humanidade não é apenas económico, mas numérico, genético e cultural. Deveu-se ao ambiente e interação humana o desenvolvimento da inteligência que cria riqueza (ver último artigo). Para vencerem, as civilizações dependeram de uma base coerente de tecnologias para resolver problemas relativos a (Rifkin, 2019): comunicação; produção de energia; mobilidade e logística. Ou seja, os fluxos que criam riqueza como pessoas, bens, energia, água, informação ou capital (Vaclav, 2013). Se, durante algum tempo, um vírus interrompe esses fluxos, então a economia morre.

Devido à proximidade que proporciona entre pessoas, a cidade é a forma mais eficiente de gerir os fluxos que sustentam civilizações, mas não como um amontoado de edifícios erigidos com muito cimento e aço. O modelo foi útil, pois abrigou milhões de trabalhadores da 2ª revolução industrial a viver nos anéis urbanos em redor dos centros das cidades, e estes eram esvaziados de vida e interação. É a civilização que depende de recursos fósseis, ou seja as carcaças de animais e plantas em decomposição no subsolo há milhões de anos.

É a cidade que gere fluxos de tangíveis (bens, pessoas, combustíveis fósseis). Mas, hoje, tal modelo já não é tanto sinónimo de progresso mas ajuda a um ecocídio. O modelo, criado há 70 anos, não favorece a interação e interconexão humana, tende a fechar os indivíduos (ou famílias) em casulos como as casas suburbanas ou os automóveis poluentes que os transportam todos os dias para o centro da cidade. É um modelo urbano que resulta na exploração dos seus habitantes, iludidos no consumo materialista, em que a riqueza criada é absorvida nos fluxos materiais, logo finitos (Vaclav, 2019). A população, stressada no consumo, transito e lides domésticas, não tem disponibilidade para o ócio e cultura, essenciais para a aquisição de conhecimento com valor objetivo e a criatividade. Ainda está a acontecer, atualmente nas megacidades emergentes, sobretudo na Ásia (China), com o consumo desenfreado.


O que a cidade afeta?


A agricultura e pecuária também se industrializaram e ocupam extensos territórios extraídos à natureza. É preciso abastecer as cidades, cada vez mais populosas, mas sem destruir o solo essencial à vida, e torná-lo em terreno estéril e a afetar os recursos de água. A população cresce e consome mais, aumenta a procura, extrai da natureza, destrói a diversidade da vida As áreas ocupadas para fins urbanos e agropecuária industrializada estão a minguar o território natural, essencial para o equilíbrio ecológico.


Além da perda irreversível da diversidade da vida, necessária para medicamentos ou soluções de alimentação saudável, a ocupação está a aproximar os humanos dos principais focos de doenças (vírus e outros) desconhecidos que poderão acelerar a novas pandemias mortíferas (Neira, 2021). Já nem interessa repisar os temas de aquecimento global, acidificação e plastificação dos oceanos, a extinção da vida selvagem e marinha, envenenamento dos solos, água, ar. Tudo isto poderá acabar depressa com a humanidade.


Na cidade que estagna, os fluxos são sobretudo de tangíveis (pessoas, bens e energia de combustíveis fósseis). A terceira revolução industrial introduziu os computadores e as redes que os ligam (Internet). Para a maioria das atividades económicas não aconteceu uma efetiva acoplagem entre o tangível e a informação, sendo a banca (que gere informação) uma das poucas exceções o que permitiu expandir nas três décadas antes de 2008, cuja crise dita o ápice da segunda revolução industrial.


O mundo terá de ser diferente, mas a maioria das nações ainda irá preservar o modelo económico a que as suas elites precisam para o poder. São sociedades que estagnam a depender da extração, seja de recursos naturais (como minérios), ou de humanos (mão de obra braçal barata, quase escrava, ou a cobrar impostos para alimentar a máquina publica ineficiente, burocrática, que sustenta a elite).


O futuro da cidade ou a cidade do futuro?


A cidade é solução para a sociedade bem-sucedida na 4ª revolução industrial, e distingue-se pela sua maior desmaterialização, digitalização, humanidade. O modelo pode ser híbrido (Gomes, 2018) que integra o que é tangível hardware (imóveis e infraestruturas), com o software (informação e instituição) e o humanware (pessoas, cultura).

Pode evoluir para algo como um organismo vivo, um sistema aberto tal como é o corpo humano que depende de células e de bactérias a influenciarem-se mutuamente. Os imóveis podem simular as células, os humanos as bactérias e a Internet (informação, energia, mobilidade, logística) o sistema nervoso. E a economia de hoje está sujeito à informação.

Como no cérebro humano, as cidades são nós numa vasta rede que é uma mente coletiva (Henrich, 2020). Com tecnologia, a rede interconecta-se em todo o mundo, numa espécie de Mente S.A. (Al Gore, 2013), e numa malha mais fina (até neuronal) interliga cada humano (por telemóvel) e cada objeto (internet das coisas) quase à velocidade da luz.


Não precisam de ser megacidades, apenas eficientes na sua gestão e na sua singularidade. O sucesso pode observar-se em cidades como Macau, Singapura ou São Francisco. A cidade de Lisboa tem potencial muito elevado, não a copiar tais exemplos mas devido às suas condições naturais e humana, mas requer mudança nas instituições.


A disrupção em curso é patente na Inteligência Artificial, Internet das coisas, biotecnologia, energias renováveis. Estas tecnologias irão liderar a sociedade e a economia nas próximas décadas, mas implicarão ruturas profundas na forma de viver, interagir e criar riqueza. Talvez nem tanto em economias que apenas importem tecnologia e finjam ser avançados. Como as guerras mundiais, a pandemia do coronavírus está a acelerar a mudança. A crise social e económica, um novo modelo irá disseminar e consolidar com novos líderes.


A tecnologia industrial evoluiu tanto que, em breve, boa parte da população urbana que obtinha sustento no trabalho físico e rotinas de baixo conhecimento na indústria e serviços será substituída por máquinas (robots, computadores). Emergirão muitas novas profissões. Algumas requerem formação e adaptação que a maioria não quer ou pode adquirir. É quase certo que as empresas irão enviar boa parte dos seus trabalhadores para casa, muitos despedidos. A crise atrairá ainda mais população para as cidades pois procuram aí a sua oportunidade de vida.


A nova economia irá valorizar atividades de toque humano (cuidadores, enfermeiros), o trabalho técnico não rotineiro, mas criativo e inteligente. A população, em geral, é liberta do esforço físico ou rotineiro, terá de se reinventar para o trabalho do conhecimento e criativo (artístico, filosófico, empreendedorismo). A cidade de Detroit nos EUA é um bom exemplo de um sistema económico que faliu, pois baseado em tecnologia ultrapassada, e que está a renascer a partir do seu centro através das industrias do conhecimento e criatividade.


A cidade terá de transformar-se


Como máquina de urbanização e edificação em betão e tijolo, que depende de fluxos de tangíveis, a cidade tenderá a estagnar. Claro que a cidade é física, mas deve funcionar como um sistema vivo, autossuficiente e adaptativo à envolvente. Os fluxos desmaterializados e digitais ganham peso são o que confere riqueza à cidade. Como principal objetivo, o centro da cidade deve atrair população que cria riqueza (trabalho, empreendedorismo) e nela viver. É a população mais vasta, não os nichos, que padroniza o seu carácter e riqueza quando a habita e usa no dia a dia.


Numa economia que se quer regenerativa, o foco não é construir, e construir ainda mais. Esse tempo já passou. Deve antes reaproveitar, renovar, reabilitar. Admite-se construção nova, mas em projetos de elevada eficiência para a classe média e jovens produtivos para viverem no centro da cidade. Admitem-se nichos, como os do luxo, procurados por quem tem dinheiro. Mas, é uma procura que só existe para a cidade com ambiente humano e vida própria, ou seja, uma população ativa que usa intensivamente a cidade. Por isso cidades como Nova Iorque, Londres, ou Paris são procuradas. Uma cidade vazia de habitantes não passa de um resort turístico, sem caráter, e dessas os próprios ricos evitam.


Apesar dos meios digitais percebe-se que a criatividade, a inovação, o pensamento abstrato ou o conhecimento exigem a presença e interação humana. Existe uma gama de atributos de comunicação não verbal e sentidos que o digital não consegue transmitir que leva a mente a ultrapassar os limites da compreensão e da imaginação; dificuldade sentida por quem assiste a aulas virtuais. Requer-se ambientes que estimulem a interação humana, o trabalho criativo, a produtividade. A redução do stress da população implica mais tempo livre para descanso ou cultura que estimula a mente. O progresso não é compatível na cidade que obriga aos seus trabalhadores consumir horas em deslocações diárias, um modelo que serve para estruturas de baixa produtividade com tarefas de rotina, burocráticas ou pouco mentais.


A cidade competitiva deve simular um organismo vivo, com um sistema neuronal capilar e eficiente, autossuficiente e sustentável (smart city). Deve produzir a energia que consome, processar boa parte dos próprios alimentos, tratar e reutilizar o seu lixo e esgotos para reaproveitar a água e nutrientes.

A transformação radical da cidade precisa de uma nova engenharia, não tanto a tradicional muito presa às velhas tecnologias baseada nos recursos fósseis e no material. A engenharia civil terá de sair desse casulo, evoluir para metodologias e tecnologias em contextos mais desmaterializados, mesclar-se a outras disciplinas como a inteligência artificial e a gestão. Criar novas disciplinas.

Será tema do próximo artigo.


Lisboa, 27 de fevereiro de 2021


João Correia Gomes


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