• João Correia Gomes

INDUSTRIALIZAÇÃO, URBANIZAÇÃO, ENGENHARIA e...

Atualizado: Mai 26

INSTITUIÇÕES!


São os quatro pilares que suportam a prosperidade na civilização atual. Eles se entrecruzam, são interdependentes, interrelacionam-se, influenciam-se mutuamente. Precisam de estar equilibrados em harmonia para funcionar como um sistema, além de viabilizar o progresso que poderá ser extraordinário e, até, sustentável. Mas, descurar apenas um deles o progresso pode perder ímpeto, mesmo que a dado momento a sociedade pareça bem-sucedida.

Se a sociedade descurar mais de um pilar, então a estrutura socioeconómica desabará, o progresso será menos provável, a sociedade enverederá pela estagnação e, por fim, a ruína.


Estes processos cresceram e reforçaram-se a partir da segunda metade do século XVIII. As primeiras nações industrializadas, com regimes constitucionais, muito devem a eventos revolucionários dessa época. A riqueza que essas sociedades criavam destacava-se das demais no mundo. Primeiro foi a Grã-Bretanha, depois a França, os E.U.A., a Alemanha.

Hoje em dia, são mais as sociedades que beneficiam de alto desenvolvimento económico como Taiwan, Coreia do Sul ou Israel (UN, 2020). Outras sociedades experienciam elevado progresso, mas pode questionar-se a sua sustentabilidade no longo prazo; será o caso da China que não é ainda um país desenvolvido, e pode não chegar a sê-lo! (Boyle, 2021)

As atividades económicas beneficiam desses pilares do desenvolvimento económico. Algumas atividades captaram bem esses benefícios para crescerem e muito. O benefício foi de tal modo bem-sucedido que ultrapassaram as atividades essenciais da prosperidade, passando a dominar e explorar as indústrias, as cidades, a engenharia e até as instituições. São exemplos de atividades nas áreas financeiras ou jurídicas. Todavia, esse domínio deve ser equilibrado pois pode levar a atuações extremas devido à ganância, transformando-se na semente da destruição, inclusive dessas áreas.


As Instituições?

São as instituições que suportam a sociedade que quer prosperar (Gomes, 2018), pois proporcionam o ambiente adequado para os processos socioeconómicos medrarem. Adequam com atributos essenciais como a confiança, equidade, liberdade ou o livre arbítrio. As instituições têm origem em eventos como as revoluções americana e francesa, o Estado de direito e o social, os bancos centrais, os tribunais independentes, as universidades utilitárias (como as técnicas e de investigação científica).


Criou-se um sistema de instituições nas sociedades modernas, multiplicando em escala as operações económicas para níveis eficientes, como os seguintes exemplos:

  • O dinheiro (intangível hoje em dia) pela moeda fiduciária ou informação;

  • A instituição de direitos de propriedade, registados com segurança, desde a propriedade predial à intelectual;

  • A emergência de figuras como a hipoteca de imóveis (o que promoveu o crédito) ou a propriedade horizontal;

  • A democracia e imprensa livre que mitigaram os riscos de mau governo sem escrutínio;

  • O direito que mitigou a perceção geral de injustiça, iniquidade, concentração de riqueza e poder a favor de minorias ou oportunistas;

  • O direito de pensamento e livre expressão que facilita a criatividade, essencial para inovar, a base da sociedade competitiva do século XXI.

Descurar este pilar leva ao retrocesso social e económico. O sistema judicial e burocracia, lento e inoperante, retira confiança aos agentes económicos, afasta o capital que investe (sobretudo o externo), desmotiva o empreendedorismo, atrai oportunistas que exploram outros com negócios estéreis ou predatórios, cria desigualdades a favor de poucos como era corrente no passado.

Para atingir o alto desenvolvimento, a institucionalização continua essencial, mas terá de ser muito mais eficiente e eficaz. Ao contrário do que se faz, deverá depender menos de exércitos de funcionários públicos (modelo séculos XIX-XX), burocratas que condicionam os processos do progresso. A revolução poderá ser tão profunda para transferir para processos como o Blockchain (Allen et al., 2020).

É provável que cresça a brecha entre as sociedades mais dinâmicas que gerem alta confiança e as outras, cada vez mais pobres, muito burocratizadas dependentes de estruturas públicas pesadas no papel e carimbo, com imensos funcionários a manter os seus postos de trabalho e privilégios, até esgotarem toda a economia que os alimenta a partir de impostos.


E a Industrialização?


Otimiza os recursos disponíveis na produção eficiente de bens em escala e complexidade por operações que aplicam inteligência, energia e máquinas. Liga-se a conceitos como gestão (processo racional), produtividade ou sinergia para obter um efeito multiplicativo nos recursos de baixo valor transformando-os em bens de alto valor.


O princípio pode ser algo similar desde a origem há 250 anos com os primeiros processos industriais, mas não existe uma fórmula universal e perene para julgar o conceito de recursos baratos. O conceito tem evoluído com os contextos sociais, económicos e ecológicos que evoluíram com o conhecimento e consciência sobre tais contextos.

No passado europeu, ou na Ásia ou África atuais, até poderia entender-se a mão de obra como abundante, logo barata, disponível para explorar sem limites ou regras. Ou, atribuir infinidade à natureza, sem a compensar de algum modo para nela se despejar todo o lixo e resíduos tóxicos resultantes dos processos industriais e consumo desenfreado. Entretanto, descobre-se que os seres humanos e a natureza (a qual precisamos para viver) não devem menosprezar-se, mas terão de ser protegidos.


O princípio de industrialização deve manter-se porque leva a melhor aproveitamento dos recursos escassos, mas as operações terão de ser diferentes. É preciso aumentar a prosperidade comparativa. Provavelmente as operações terão menos pessoas e mais máquinas com custos de produção a tender para zero (Rifkin, 2014).


A Urbanização?


A cidade otimiza os fluxos que efetivamente criam riqueza sejam de pessoas, bens, energia, informação ou capital. A cidade (UN, 2020) foi sempre o centro mais eficiente e eficaz para operar as necessidades do grupo, tanto na defesa, no conforto (consumo de energia), na transação de bens e logística, para comunicar e para gerir (poder). A riqueza e bem-estar das sociedades depende da forma eficiente como os seus membros comunicam, transacionam, se movimentam a si e aos seus bens como menor consumo de energia. Além disso, a prosperidade depende de ambientes em que os humanos se vejam uns aos outros, se sentem, interagem. A cidade foi sempre uma espécie de máquina eficiente para tais fins.


A urbanização criou condições para a cidade ser ainda mais eficiente, atraindo e abrigando cada vez mais população. A cidade é a principal máquina da civilização que precisa de funcionar bem, o que requer infraestruturas para os fluxos de energia, bites, água potável, águas residuais, de humanos ou mercadorias. Como exemplo, o saneamento foi uma das maiores invenções da humanidade pois, além de ter salvo milhões de vidas nestes últimos 200 anos, sem ele não seria possível ter grandes cidades que produzem a riqueza.

Pode apontar-se a primeira urbanização moderna na Baixa Pombalina de Lisboa, projetada após o terramoto de 1755. Foi pioneira na organização das ruas em malha quadrada (quarteirão) ou no saneamento de águas resíduais e pluviais. Este modelo depois foi copiado pelas cidades prósperas do século seguinte, como Nova Iorque ou Barcelona. No futuro próximo, continuarão a ser as cidades a concentrar a prosperidade, porque é aí que está mais conhecimento, mercado, pessoas que compram e vendem.


Entretanto, terão de beneficiar de largos investimentos em infraestruturas, tanto as tradicionais (Attali, 2009) como redes de esgotos que carecem de reabilitação), como novas redes. A cidade próspera interligará as redes físicas tradicionais (estradas, esgotos, águas) às redes de intangíveis, através das Internets: das coisas; da informação; da energia; da logística e transporte (Rifkin, 2019). Tudo se interligará como se fosse um enorme cérebro ativo movimentando as unidades de um corpo vivo e assim produz riqueza (Gomes, 2004).


A cidade próspera está longe de ser um campo onde se acumula edificado. Uma economia não sobrevive a produzir patrimónios imobiliários e bens que acumula. Exige movimento (transações). O imobiliário para venda beneficiou apenas porque a banca captou interesse no rendimento devido ao crédito hipotecário e assim sustentou o negócio de longo prazo. Com a mudança em curso na indústria financeira, o capital provido por investidores institucionais (fundos de pensões, seguros) passará a ser central. O negócio imobiliário nas cidades voltará ao rendimento (fluxos).


E a Engenharia?


Desde que existe como atividade estruturada a sua função trata de encontrar soluções para os problemas da sociedade com o uso de ciência e matemática. A engenharia continua crucial para encontrar soluções tecnológicas para as questões da sociedade desde a medicina, empresas, cidades, profissionais, produção e distribuição de alimentos e bens de consumo, os fluxos da sociedade como a energia, os transportes, etc.

A engenharia aplica a inteligência (matemática e ciência) para inovar, desenvolver e aplicar a tecnologia da industrialização e a urbanização. A internet, a produção de energia ou os instrumentos médicos são produtos diretos da engenharia, sem os quais se regressaria à Idade das Trevas em que a morte e a miséria das pessoas era banal.


A engenharia está nos bastidores desde a máquina a vapor da primeira revolução industrial, mas está ainda mais presente na sociedade industrial da informação, inteligência artificial ou biotecnologia. As sociedades mais prósperas são as que valorizam a engenharia. Pelo contrário, as sociedades que estagnam relegam a profissão para uma posição secundária.

Os profissionais mais ambiciosos e competentes tendem a emigrar para economias que os recebem e compensam de forma adequada porque sabem a fonte da sua prosperidade.

Para beneficiar da prosperidade é primordial equilibrar a base institucional ajustada com a industrialização e a urbanização, sem descurar o papel da engenharia que as pode otimizar. Caso contrário, é o caminho certo de estagnação para a pobreza.


Lisboa, 24 de Maio de 2021


João Correia Gomes


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