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SISTEMA DE SANEAMENTO BÁSICO DA COSTA DO ESTORIL - PARTE 1 DE 3



1. HISTORIAL DAS VÁRIAS SOLUÇÕES AO LONGO DOS ANOS


Nos anos 50 do Século passado, a região dominada por Costa do Sol (à altura), abrangendo apenas Estoril e Cascais, era servida por pequenos sistemas de esgotos isolados, descarregando directamente em linhas de água sem qualquer tratamento prévio.


A pressão da imprensa dos países do destino dos turistas que frequentavam as praias de Carcavelos a Cascais, levou o Ministério das Obras Públicas a desenvolver um sistema de drenagem, achado adequado à altura


O Sistema desenvolvido e concretizado é designado tecnicamente como “Sistema em Espinha” e consistiu na construção de nove Sistemas Elevatórios a saber:


  • Jamor;

  • Barcarena;


  • Paço de Arcos;


  • Laje;


  • Marianas;


  • Parede

  • S. Pedro

  • Cadaveira;

  • Hípico.


que elevavam os caudais afluentes para um ponto alto da marginal e depois graviticamente afluíam à elevatória seguinte e assim sucessivamente até ao destino final, que consistia na descarga para o Oceano na falésia existente no enfiamento da Rua da Torre, no início da estrada do Guincho.


Inauguração da Marginal na zona de Algés em 1942 e onde foram posteriormente implantados os Sistemas Elevatórios


Como por vezes acontece no nosso País, quando da inauguração do Sistema, os caudais afluentes eram superiores aos de cálculo e nas situações de ponta era necessário abrir as descargas da Estações Elevatórias e descarregar o caudal em excesso, quer para o Rio Tejo, quer para o Oceano Atlântico em frente das praias.


Além disso, estas infraestruturas, situadas ao longo da costa, não estavam previstas para servir as zonas mais interiores onde houve um surto muito grande de construção habitacional.


A região da Costa do Estoril (alteração da sua designação) estava bem dotada de redes de distribuição de água e todos os aglomerados populacionais se encontravam equipados com redes de drenagem de esgotos que, por inexistência de um sistema base adequado para onde pudessem lançar os seus afluentes, descarregavam, em muitos casos, para as linhas de água ou em interceptores que desaguavam na costa junto às praias.


Esta situação perlongou-se até ao inicio dos anos 70, altura em que a pressão turística, sobretudo dos países Nórdicos onde a imprensa estava constantemente a referir do perigo que eram os banhos nas praias da Costa do Estoril, o então Ministério das Obras Públicas resolveu abriu um Concurso Público para a apresentação de soluções que resolvessem definitivamente esta Inconformidade Ambiental.


Felizmente, nessa altura, os projectos eram pagos pela chamada “Tabela de Obras Publica” e as Comissões de Avaliação da Proposta limitavam-se a analisar tecnicamente as soluções propostas pelos Projectistas.


Este sistema permitiu que as empresas de engenharia portuguesa que se dedicavam ao desenvolvimento dos Projectos das diferentes especialidades, se desenvolvessem e fossem pagas devidamente.


Foi a época áurea da engenharia portuguesa.


Hoje em dia, com os chamados “Preços Anormalmente Baixos”, muitas das empresas de Projecto fecharam e as obras resultantes de cada projecto têm muitos “Trabalhos a Mais” porque as empresas para conseguirem sobreviver recrutam técnicos recém-formados pagos a preços incrivelmente baixos.


No referido Concurso verificou-se um confronto de ideias, sobretudo, entre a solução apresentada pela HIDROPROJECTO (Eng.º Lencastre), e a solução apresentada pela DRENA (Eng.º Celestino da Costa).


A primeira das soluções consistia na construção de ETAR’s Secundárias nas principais Bacias. Os afluentes depois de tratados eram conduzidos para interceptores que desaguavam nas principais praias.


A segunda das soluções consistia na construção de um longo interceptor gravítico entre a Bacia do Jamor e a Guia, que conduzia 85% dos caudais por gravidade. Os restantes caudais (15%) seriam para aí elevados pelas Centrais Elevatórias construídas na década de 50 do século passado, que seriam remodeladas em conformidade.


Na Guia seria construída uma ETAR preliminar, onde as águas residuais eram submetidas a operações de gradagem e de crivagem que delas retiravam sólidos de dimensões superiores a 5mm e os caudais tratados seriam posteriormente conduzidos para o mar por um emissário Submarino.


Os equipamentos ficavam instalados em três galerias subterrâneas em forma de H, cuja base se situava a 25m da superfície e a Poente do Farol da Guia.


A atmosfera interior seria controlada, sendo os gases extraídos sujeitos a um processo de controle de odores por ozonização.


Em pontos estratégicos do Interceptor (S. Pedro e Guia) seriam construídas centrais de insuflação de ozono para controlo dos sulfuretos produzidos ao longo do Sistema.


Os sólidos retidos na estação de tratamento preliminar eram extraídos por equipamento pneumático e posteriormente, no edifício a construir à superfície, desidratados e compactados e posteriormente entravam na recolha doméstica de lixos.


Após o tratamento preliminar, os caudais seriam dispersos na massa oceânica através de um emissário submarino.


Este órgão final do Sistema teria um comprimento de cerca de 2.750m.


Nos primeiros 900m, o emissário seria constituído por uma conduta em formada por tubos de Ferro Fundido Dúctil DN1.800mm, instalados em vala aberta no fundo rochoso e posteriormente refechada com betão.


No final seria implantada uma peça de derivação e o emissário ramificava-se, sendo instalados no início, dois tramos em tubagem flexível de PEAD, com um DN1.200mm.


O sistema estaria preparado para que no futuro se pudessem instalar mais dois tramos.


No troço final de cada um dos tramos de PEAD com um comprimento de 400m, situar-se-iam os difusores que promovem a dispersão do esgoto na água do mar a uma profundidade de 45m.


Todo o sistema, incluindo as Estações Elevatórias, seriam controlados a partir de uma central situada no edifício sobre as já referidas galerias da ETAR.


Estimava-se à altura um custo total de 20 milhões de contos (1€=200escudos), e previa-se a conclusão das obras até finais da década de 90, do século passado.


Esta última das soluções foi designada por “Tudo à Guia



Esquema do Sistema



A última das soluções foi a vencedora e tinha três fases a implantar ao longo de 10 a 20 anos.


A primeira fase, e enquanto se desenvolviam todos os estudos da solução “Tudo à Guia”, consistia na construção dos Emissários Submarinos do Jamor, Barcarena, Laje e S. Pedro, quebrando o Sistema em Espinha dos anos 50 e permitindo que o Sistema lidasse com os caudais durante mais alguns anos.


A segunda fase consistia na construção do interceptor entre a Bacia da Laje e a Guia, na execução da ETAR preliminar, e do emissário submarino.


Nesta fase elevava-se também para o interceptor os caudais das zonas baixas afluentes às elevatórias da Laje, Marianas, S. Pedro, Cadaveira e Hípico.


Na terceira fase construía-se o Interceptor entre a Bacia do Jamor e a da Laje, e elevava-se para o Interceptor os caudais das zonas baixas afluentes às Elevatórias do Jamor, Barcarena e Paço de Arcos.


Assim se promovia a despoluição das linhas de água e da água do mar junto às praias para fins balneários até níveis que respeitassem as normas existentes, nomeadamente o valor guia da CEE para implementação de Bandeiras Azuis para a contaminação de 100 coliforme fecais (CF) por 100ml de água do mar junto à costa.


As diferentes fases foram sendo desenvolvidas ao longo dos anos 70/80 e 90 do século passado.


A região da Costa do Estoril tem uma área aproximada de 22.000 hectares, e drena a totalidade dos esgotos dos Concelhos de Oeiras e Cascais, 80% do de Sintra e cerca de 40% do da Amadora.


A população estimada à altura era de cerca de 700.000 habitantes residentes e no horizonte de Projecto de 1.200.000 Habitantes.


Além desta população, a Costa do Estoril era muito procurada por residentes na zona de Lisboa e turistas na época do Verão, a chamada população flutuante, que foi devidamente considerada.




2. Algumas Histórias Engraçadas Durante o Desenvolvimento do Projecto e das Obra


Logo após a conclusão da proposta técnica

O prazo para a entrega das propostas foi muito curto o que obrigou todos os técnicos envolvidos a trabalharem dia e noite e sem fins-de-semana.


Após a adjudicação, o Eng.º Celestino da Costa deu a todos os colaboradores 4.000 contos, que na altura deu para ir com a minha primeira mulher a Londres durante uma semana, com hotel, refeições, teatro e muitas compras e ainda sobrou alguns cobres. Na altura um litro de gasolina custava 0,25 cêntimos de escudo. Vinte cinco tostões como se dizia na altura (1 euro equivale a 200 escudos);


Negociação para a compra das tubagens de PEAD de DN1.200mm, na Finlândia

O Gabinete de Saneamento Básico da Costa do Estoril que conduziu as diferentes fases do Projecto e da Obra, resolveu negociar a compra da tubagem de PEAD em Vasa na Finlândia, onde a temperatura na altura da discussão dos custos rondava os 26º negativos e só havia 2 horas de sol.


Da parte do Gabinete estava o Eng.º Soares Dias e como consultor estava eu, que na altura era quem mais sabia daquele tipo de tubagens. Do lado do fornecedor/fabricante e à boa maneira finlandesa encontravam-se uma resma de técnicos(as), vestidos a rigor e muito formais nas intervenções.


Pelas 17h00 do primeiro dia, tocou a sirene da fábrica, e todos abandonaram as negociações, tendo-nos convidado para irmos à sauna da Administração.


Como bons portugueses demoramos algum tempo na conversa, e quando fomos para a sauna, enrolados numa toalha, estavam todos os técnicos(as) completamente nus e com uma grande caneca de cerveja preta quente. Lá nos juntamos à banda.


No dia seguinte voltou tudo à formalidade.



Inauguração da Central Elevatória de Barcarena na 1ª fase da obra

Foi um acontecimento que teve a presença de individialidades do Ministério das Obras Públicas e das Câmaras Municipais, todos vestidos com os fatinhos escuros às riscas e o Chapéu do coco da praxe (1973).


Já não sei quem carregou no botão de arranque da Central Elevatória para a inaugurar, mas como estava PMAV nessa altura, todo o esgoto saiu pela chaminé de equilíbrio em chapéu, molhando todas as individualidades de trampa.


O empreiteiro achou que a altura da mesma, definida em projecto, desfigurava o edifício e cortou-a em 2m.


Felizmente ou infelizmente, estávamos em ditadura e as notícias foram todas abafadas e os fatinhos e chapéus por certo substituídos;


Reunião nos SMAS de Cascais com o Presidente da CM

Quando da construção do troço do Interceptor em túnel entre a Ribeira das Vinhas e a ETAR da Guia houve diversos moradores que se queixaram à CMC das explosões que se verificavam na frente do túnel.


O Presidente da CM solicitou reunião de esclarecimentos nas antigas instalações dos SMAS, junto ao então Hospital de Cascais.


Estávamos todos reunidos na sala de reuniões quando se dá um rebentamento, com muito pouca vibração.


O Presidente disse que a malta refilava por tudo ou por nada, quando se dá um enorme rebentamento que estremece todo o edifício.


O primeiro tinha sido no troço Casino/Vinhas e o segundo mesmo junto aos SMAS no troço Vinhas/Guia;


Visita do Primeiro Ministro Dr. Mário Soares ao Troço de Túnel entre o Casino e as Vinhas

Durante a primeira crise financeira de Portugal, que teve a intervenção do Fundo Monetário Internacional e com o troço referido concluído, o Dr. Mário Soares meteu-se num jipe e percorreu todo o troço entre o Casino e a Guia, sendo eu o cicerone.


Ao chegar às Vinhas e depois de uma curva apertada, viu-se dia e o Primeiro Ministro disse “está a acabar a crise financeira, já vejo luz no fim do túnel”.


No dia seguinte todos os jornais abriram com esta frase na primeira página;


Depressão das Lagostas em Cativeiro

O primeiro troço do emissário submarino foi implantado numa vala aberta com explosivos.


Como sabe quem conhece a estrada entre a Guia e a praia do Guincho, existem alguns restaurantes que têm associados viveiros de mariscos.


Certo dia, estavam todos os técnicos afectos à obra em mais uma reunião de Produção, quando um dos donos de um restaurante entrou na sala e disse em alta voz que as suas lagostas estavam deprimidas devido aos rebentamentos subaquáticos e que os clientes se queixavam da dureza da carne e que iria pedir uma indemnização ao Gabinete de Saneamento Básico da Costa do Estoril.


BONS VELHOS TEMPOS DOS IDOS ANOS DE 70, 80 E 90 DO SÉCULO PASSADO.



3. O Interceptor

Um longo Interceptor entre o Vale da Ribeira do Jamor e a Guia, numa expensão de um pouco mais de 21Km e com diâmetros entre 1,50m e 2,50m, recolhe graviticamente os caudais provenientes dos emissários instalados nos vales das Ribeiras e dos nove sistemas elevatórios situados junto à Costa.


Os primeiros transportam caudais provenientes de numerosas redes urbanas a cotas superiores ao do Interceptor que, assim, são drenadas por gravidade (85% dos caudais).


Os sistemas elevatórios, por sua vez, concentram e enviam para o Interceptor, por bombagem, os caudais produzidos nas áreas urbanas mais baixas (15% dos caudais).


Estima-se, que no horizonte do projecto (2030), o caudal que chegará à Guia será de 320.000m3/dia, correspondente a uma população de cerca de 1,20 milhões de habitantes.


A construção do Interceptor foi feita em vala aberta, utilizando tubos de betão pré-esforçado, quando a profundidade não excedia os 8m.


Além desta profundidade o Interceptor foi desenvolvido em túnel, cuja profundidade chega a atingir os 40m, nalgumas zonas, sendo o colector sido moldado em betão armado e ligado às superfícies da escavação por pregagens e os espaços cheios pela injecção de caldas. Por causa dos sulfuretos as superfícies internas dos túneis foram revestidas a fibra de vidro.


Cerca de 7Km foram executados em vala e cerca de 14Km em túnel, escavado a partir de várias frentes situadas nos vales das ribeiras.


Para atravessar os vales da ribeira da Laje e das Vinhas foram construídas Pontes Canais.


Como já foi referido o Interceptor foi desenvolvido em duas fases.


A primeira entre o vale da Laje e a Guia e a segunda entre os vales do Jamor e da Laje.


A ponte Canal das Vinhas foi construída na primeira fase e a da Laje na segunda.



As principais Entidades envolvidas foram:


Primeira fase

  • Dono de Obra – Gabinete de Saneamento Básico da Costa do Estoril (GSBCE) – Ministério do Planeamento e da Administração Territorial;

  • Direcção Técnica da Empreitada – DRENA – Estudos e Projectos de Saneamento, Lda.;

  • Fiscalização – CONSULGAL - Consultores de Engenharia e Gestão, S.A.;

  • Empreiteiro – OPCA – Construções Técnica, Ace


Segunda Fase

  • Dono de Obra – Gabinete de Saneamento Básico da Costa do Estoril (GSBCE) – Ministério do Planeamento e da Administração Territorial;

  • Direcção Técnica da Empreitada – DRENA – Estudos e Projectos de Saneamento, Lda.;

  • Fiscalização – FBO, Fernando Braz de Oliveira, S.A.

  • Empreiteiro – Teixeira Duarte/EPOS, Ace



4. Algumas Fotografias da Construção do Interceptor


  • ·Em Vala




  • Em Túnel





5. Cenas dos Próximos Capítulos em Fotografia


  • ETAR Preliminar (Parte 2 de 3)





  • Emissário Submarino (Parte 3 de 3)







Manuel Luís de Sequeira Bénard Guedes

(Eng.º Civil IST – Membro da OE N.º 15902 Sénior e Especialista em Engenharia Sanitária)

29 de Março de 2021

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