• Aline Guerreiro

CONSTRUÇÃO SUSTENTÁVEL

Atualizado: Fev 26


Andamos há anos a sofrer as consequências de décadas de materiais baratos, modas importadas e projetos de arquitetura e construção que ignoraram o ambiente natural e as condições climáticas. Recuperar algum do conhecimento empírico do passado, enquadrando tecnologias disponíveis, poderia ser a solução para construímos um futuro mais sustentável.


Há muito quem ainda não tenha percebido do que trata a Construção Sustentável. É que para se construir bem não é necessário recorrer a normas e soluções construtivas exigentes, como as que surgiram nos países nórdicos, e de clima frio durante quase todo o ano. O clima em Portugal tem períodos de frio e períodos de calor intenso, o que dificulta a adoção de uma única estratégia, durante todo o ano. É preciso pensar em estratégias específicas, isto é, estratégias que minimizem o calor no verão e o frio no Inverno. Não queria ser mal interpretada, quando me referi, no meu artigo anterior, à solução preconizada pela Passive House (Passivhaus), nem muito menos, irei para as redes sociais discutir esse assunto.


A minha intenção é apenas a de partilhar informação que considero essencial ao setor da construção e que possa ser entendível por todos. Porque na verdade, o que existe em Portugal é quase um “analfabetismo” em relação a este setor. Mas o que é preciso desmistificar, é a necessidade que se cria na cabeça das pessoas, impingindo-lhes regras e processos construtivos usados em outros países e que de inovação nada têm, a não ser a de que foram desenhados para climas muito diferentes do nosso. Senão, continuar-se-ão a vender processos desadequados ao comum português. Vamos lá ver, não há dúvida de que as estratégias PassivHaus, beneficiam a qualidade do ar interior e também o conforto térmico, mas no nosso país, não é necessário estabelecer princípios tão rígidos, quando o nosso clima nos pode auxiliar nesta matéria.


Fig. 1 – técnicas passivas que contribuem para o movimento do ar, in Arquitectura y Climas, Rafael Serra


Chama-se Arquitetura Vernacular. O conceito tem mais de 100 anos e as suas estratégias de adaptação à envolvente são bioclimáticas, e caracterizadas não só pela sua simplicidade e baixo impacte ambiental, como também pelo seu funcionamento verdadeiramente passivo, onde não são necessários meios mecânicos para a climatização e ventilação dos edifícios. Já nos basta o que se passou com a reabilitação do Parque Escolar que resultou, num número significativo de casos, em custos de manutenção e funcionamento dos meios mecânicos tão elevados, que é impossível dar-lhes uso. As estratégias de arquitetura vernacular, são por isso, particularmente relevantes para os desafios que a construção enfrenta nos dias de hoje.


Resumindo, a necessidade que há em Portugal, é apenas a de se saber construir bem e de forma sustentável. Então, e o que é construir bem e de forma sustentável? É o correto dimensionamento de isolamento térmico eliminando as pontes térmicas, a utilização de janelas eficientes, o sombreamento adequado dos vãos envidraçados, a ventilação natural do edifício, a opção por materiais de baixo impacte ambiental, e por aí fora. Estes conceitos, existem há décadas e sempre foram contemplados em edifícios vernaculares. É claro que hoje em dia, todos falam e “pregam” sobre a qualidade do ar interior.


Fig. 2 – tipos de sombreamento


O ar pode ser renovado, logo que abrimos uma janela numa divisão de um edifício residencial. É claro que há exceções e em edifícios de serviços onde, pela atividade que se pratica o ar se polui rapidamente, serão obviamente necessárias outras estratégias, mas há equipamentos que o fazem, e se o edifício estiver bem construído, não há qualquer necessidade de recorrer a processos de certificação da construção importados, que ainda por cima, irão encarecer a obra na sua totalidade. A grande questão, volto a frisar, é saber construir bem.


Fig. 3 – típica casa minhota, contruída com materiais locais (à esquerda); típica casa alentejana, caiada de branco e com aberturas pequenas (à direita)


E todos os profissionais do setor deveriam ter a obrigação de voltar a estudar as construções vernaculares, no intuito de desenvolver e adaptar as suas estratégias aos contextos atuais da construção, contribuindo para a sua sustentabilidade, não sendo necessário fazer importações. Que além de, como já foi referido, terem sido desenhadas, na sua génese, para outros climas, necessitam da integração da hermeticidade da edificação e a colocação de um sistema de ventilação com recuperação de calor com a abertura das janelas, o que é, no nosso clima, disparatado. Não temos temperaturas tão baixas assim... Estes sistemas, necessitam, obrigatoriamente, de energia para funcionarem. De passivos, não tem nada.


Por outro lado, a reabilitação do património português é urgente. E o nosso território é rico em diversidade, havendo ainda uma vasta variedade de manifestações de arquitetura vernácula, que deve ser readaptada. E cada caso deve ser encarado de acordo com as suas particularidades específicas, revelando a importância de interpretar de forma holística e integrada as condições locais antes de intervir no território. Estando ainda a sustentabilidade na ordem do dia, não posso deixar de lamentar, que estas normas importadas, recomendem a aplicação de materiais de isolamento provenientes de petróleo (que são isolamentos completamente herméticos) quando há alternativas bem mais eficazes, viáveis, saudáveis e naturais, que deixam o edifício respirar.


É que um projeto de construção só pode ser considerado como sustentável quando todas as diferentes dimensões de sustentabilidade — ambiental, económica, social e cultural — são consideradas. Aprendendo com o passado, o futuro poderá utilizar o potencial tecnológico existente, e rumar à verdadeira sustentabilidade do setor da construção.


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Aline Guerreiro

Arquiteta CEO Portal da Construção Sustentável

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