• João Correia Gomes

PROSPERIDADE SUSTENTÁVEL EXIGE NOVO MODELO ECONÓMICO!



Tal como a vida e a inteligência, para prosperar, a riqueza precisa de ambientes dinâmicos. São fluxos que interconectam as unidades mais elementares (pessoas, células ou neurónios) para a construção de sistemas complexos, autónomos e adaptáveis.

E não será através da exploração extrativa de matéria e seres humanos que virá o progresso! Mas, será antes pela cooperação, a interação, a mútua ação-reação para a adaptação eficaz e eficiente a ambientes externos dinâmicos.

As tecnologias, sobretudo nano, bio, digital e IA são as que poderão exponenciar tais fluxos, já que as interligações e interações de humanos entre si e coisas (Iot) se processam a escalas cada vez menores, sem restrições de distancia, de tempo (mais rápidas), menos mecânicas, logo lentas e ineficientes.


A tecnologia capacita a aceleração e eficiência que perdem com as restrições de instituições de base medieval e paradigmas económicos criados há séculos em contextos ultrapassados. Não conseguem acompanhar a evolução, o que abre brechas entre o status-quo e os meios tecnológicos disponíveis, com inconformidades e ineficiências. Tal situação ameaça a total rotura social, económica e ecológica.

A economia até poderia copiar a Natureza, a qual cria a vida e a inteligência, para aplicar um modelo similar a esses sistemas complexos, melhor sucedidos.


A tecnologia até poderá beneficiar a humanidade como advoga o futurista Gerd Leonhard. Mas, despontam variáveis que são críticas na matriz da sociedade e economia. São, por exemplo, as alterações climáticas ou os desequilíbrios demográficos. O caminho errado pode enveredar para o conflito, levando à destruição até à extinção geral como advogam outros cientistas.

Partindo do princípio da resiliência da espécie humana, e que o caminho da rotura não é ainda irreversível, será possível recuperar e prosperar de modo sustentável, mas com certeza com modelos diferentes dos que estão instituídos.



Apesar dos enormes avanços da tecnologia, ainda é a Natureza (a qual inclui os humanos) a mais suprema tecnologia que a Humanidade poderá um dia alcançar. Interessa focar na produção do ecossistema que se configura para criar e fornecer vida e inteligência apenas com recursos recuperáveis e baixa energia, sobretudo a solar.


A Natureza é a fonte da ciência, seja a física, a química ou a biologia, para ser descoberta e a engenharia criar novas soluções práticas. A sobrevivência dos humanos requer também soluções socioeconómicas conformes com a Natureza, uma espécie de “ecoeconomia” proposta pelo futurista Isaac Arthur.

A economia não desligar-se do ecossistema, mantendo as velhas premissas do lassez faire ou o melhor e mais elevado uso que pressupõem o planeta como um Bem Comum a explorar sem prestar contas, sem limites (nem escrúpulos).


Vê-se bem o que está a acontecer ao ecossistema.


Os programas que regem a sociedade e o mercado tendem a omitir ou secundarizar as áreas STEM (ciência, tecnologia, engenharia e matemática), apesar serem estas as efetivas protagonistas do progresso da humanidade. A colaboração da engenharia é essencial como filosofia de ação que aplica a ciência e a matemática às necessidades da realidade. Desprovidos de conhecimento e colaboração, os agentes de decisão política e económica tendem a desprezar os temas do ecossistema do qual todos dependemos para existir.

Foi no século XVIII que se inspiraram os princípios da economia a partir da física newtoniana. Para descrever o mundo, as “certezas” económicas baseavam-se em modelos de poucas variáveis, quase sempre determinísticas, mas excluíam o facto do contexto planetário ser restrito.


Hoje põe-se em causa a perenidade da espécie humana. Porém, a ciência atual está muito além daquela em que se fundamentou a economia. Depois da ciência de base determinística já se evoluiu muito em ciência natural e física que introduziram efeitos dinâmicos, complexos, não lineares.


São casos como a termodinâmica, a física quântica ou a biologia. Através da engenharia reverteram em tecnologia avançada com soluções disruptivas na produção ao nível nano, bio, energia, informação. O Covid-19 está a acicatar a criação de vacinas inovadoras sobretudo de intervenção na genética (RNA e CRISPR). Este movimento levará decerto a biotecnologia a ganhar destaque em todos os setores produtivos no futuro próximo.

A tecnologia baseada em sistemas complexos permite-se crescer a ritmo exponencial, muito além da evolução linear e limitada da tecnologia clássica. A base material é limitada, pois não é possível extrair do planeta tudo o que todos os humanos querer consumir e deitar fora. A abordagem económica terá de ser muito diferente, mais desmaterializada, a qual possibilita um crescimento não linear.

O planeta já não aguenta modelos socioeconómicos que se baseiam em premissas que têm, por hipótese (frágil), a infinidade do planeta.

Tais modelos estão a comportar-se como uma praga destruidora.


E qual seria a abordagem a partir da Natureza?

Se a Natureza funcionasse como a economia dos humanos, o planeta já estaria esgotado. Seria apenas um calhau inerte. Não haveria lugar para …. Humanos! No entanto, a tecnologia da Natureza é muito mais avançada do que a dos humanos! Há milhões de anos que produz vida e inteligência a partir de nutrientes banais do solo, de água e da radiação solar.

Por outro lado, os humanos só conseguem produzir uns robôs toscos, alguma inteligência artificial que até ganha jogos de xadrez, mas tem de recorrer a materiais raros, logo muito escassos, extraídos do subsolo e nunca serão repostos.

Existe aqui algo que faz a diferença!


Qual é a diferença?


A natureza cria valor por interconexão e interação de unidades elementares muito simples (como células ou neurónios) que trocam entre si informação (ADN, impulsos eletroquímicos), energia por impulsos elétricos ou bioquímicos ou elementos naturais em movimento como a água ou o ar.

As unidades mais simples agregam-se em redes estruturadas e coerentes, formam unidades coesas mais complexas, criam sinergias funcionais face a efeitos de colaboração, complementação e ciclos de feedback. Com níveis superiores de agregação ganham autonomia, existência própria e capacidade de adaptação à envolvente dinâmica.

Na natureza, as unidades complexas ganham vida ou passam a ser inteligentes.

A natureza, desde o infinitamente pequeno (átomo) ao infinitamente grande, depende de estruturas de interligações e interdependências, em que as partes se influenciam mutuamente. É uma espécie de matrioska de sistemas integrados, uns dentro de outros. Tudo se interliga num todo coerente, coordenado, interdependente, incluindo os humanos. Sobressaem os fluxos que alimentam todas as unidades entre si, desde os fotões às galáxias.

Nos níveis intermédio, o planeta Terra é um sistema (quase) fechado quanto a trocas materiais, mas aberto a trocas de energia.

O corpo humano vivo é um sistema aberto a todo o ambiente que o envolve.


Neste processo geram-se fluxos essenciais ao funcionamento do modelo, desde o eletrão que se move no espaço do átomo até ao universo em expansão. Passa por corpos que se atraem pela gravidade, pelo planeta que circula em redor do sol, às correntes marítimas ou ao vento. São movimentos acionados pelas quatro forças fundamentais da natureza: a gravitacional; a eletromagnética; as nucleares fraca e forte. Geram-se fluxos que estimulam os elementos, desde o menor ao maior, que se agregam para responder ao desafio.


No mundo físico, o movimento é essencial para a dinâmica de ação que conduz à evolução. Na física clássica, o trabalho expressa a energia aplicada a uma massa que produz um certo deslocamento, e a energia do movimento (cinética) é proporcional ao produto da massa pelo quadrado da velocidade. O efeito dinâmico é reforçado por leis da termodinâmica (sobretudo a segunda lei relativa à entropia) que tratam dos fluxos de energia (calor) entre os corpos.


Na biologia, a vida processa-se através de líquidos (seiva, o sangue, ou a linfa), químicos e elétricos que fluem no corpo nutrindo e informando as células interconectadas, assim como as bactérias que cumprem funções. A inteligência processa-se nos diversos subsistemas do corpo, sobretudo o cérebro estimulado por impulsos eletroquímicos e nutrido pelo sangue.


Na natureza a criação de valor é inteligente e dinâmica. Não é uma fórmula estática com poucas variáveis focada na extração material e exploração muscular e psicológica da vida.

Se o corpo humano funcionasse com o modelo económico que aplica seria sujeito a doenças, como a fasciite necrosante, provocadas por bactérias comedoras de carne até morrer rápido. A contaminação do ecossistema por excesso do consumismo é algo similar como o envenenamento do corpo humano.

A crescente ocupação do espaço natural com urbanização e contaminação equivale a um cancro no corpo vivo face à multiplicação de células degeneradas já sem controlo nem respeito territorial das células saudáveis. A acumulação excessiva de bens materiais extraídos à natureza e da escassez de outros assemelha-se à gordura visceral.

Assim, tal como tais patologias levam à morte, também o modelo económico vigente parece conduzir à destruição da natureza. Poderá tornar-se num sinal para o planeta extinguir a sua própria bactéria extrativa e contaminante, os humanos, se estes não mudarem de atitude.



O modelo que deverá desenvolver-se começa a ser percetível nos setores que hoje em dia mais criam valor. Já não são os que dependem da extração material do planeta ou da exploração intensiva de humanos (sobretudo trabalho muscular). Os setores de alto valro acrescentado são sobretudo aqueles que se fundamentam numa conjugação de Humanware e Software. Demonstra-se já no maior crescimento e consolidação das economias que apostam nestes ativos. As economias conservadoras do status quo apenas tenderão a estagnar até à rotura final.


Apenas se quiserem, os humanos têm hoje em dia ferramentas tecnológicas para sobreviverem num mundo sustentável, equilibrado com a natureza e de baixa entropia, com a evolução do seu modo de vida.


Lisboa, 26 de dezembro de 2021


João Correia Gomes (Ph.D., Mestre em construção, Engenheiro civil)


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