• João Correia Gomes

REALMENTE SÃO ESTES OS ATIVOS QUE CRIAM RIQUEZA!?


Na sequência do último artigo, desenvolvo o tema dos efetivos ativos que sempre suportaram as sociedades humanas no seu progresso desde que emergiram.


Hardware


Este é o ativo mais evidente pela sua tangibilidade. Manifesta-se na matéria e energia que se extraí de fontes fósseis, minerais e biológicas do planeta, depois são convertidas em matéria inerte ou energia, sobretudo pelo esforço muscular (exclui-se a tecnologia) e com emissões para o ecossistema. É ainda a principal fonte de obtenção de riqueza no mundo.


Configura a visão tradicional de riqueza, tangível, pois é fácil de interpretar pelos sentidos. Basicamente, este tipo de riqueza liga-se à sobrevivência humana na representação por bens como o solo ou edificado, pois destinados à alimentação ou abrigo, e atribui poder a quem o ocupa, domina e usufrui. Numa versão mais sofisticada, combinada com atributos humanos e institucionais abrange objetos como a moeda em metal raro (ouro ou prata). Como predomina o caráter tangível estão mais sujeitos ao roubo por terceiros que os podem levar ou ocupar, ou mesmo à sua destruição.


Neste contexto, a maior quota do valor do produto atribui-se ao custo da matéria e trabalho muscular. A abordagem dos negócios tende a focar o corte de custos, mas prejudica a posição competitiva no escasso valor acrescentado. Prevalece um padrão de baixa remuneração do trabalho e serviços em que não se valoriza o conhecimento técnico. O valor dos produtos depende do caráter material e menos do conhecimento incutido, pelo que são mais fáceis de replicar por terceiros que apenas usam a observação ou engenharia reversa.

A maioria das economias ainda funciona neste modelo arcaico. Pela lei do mercado, a enorme oferta de produtores de baixa tecnologia, que exploram o trabalho braçal e a extração de matéria prima, confere um baixo poder negocial. Tal posição reforça a posição da contraparte - os operadores no mercado global mais sofisticados- que se permitem a controlar e impor o preço que preferem - abaixo do mínimo . Estas economias de baixa tecnologia tenderão a estagnar tender a ser substituídas por outras que praticam preços ainda mais baixos. Muitas economias não conseguem evoluir para mercados mais sofisticados.

Portugal ainda toca na posição das economias mais arcaicas (figura com cor esverdeada).

São economias baseadas em atividades de extração de minerais ou de bens naturais como a pesca ou floresta, quase sempre com salários baixos para muito trabalho de baixa inteligencia e muito esforço manual ou muscular. Tais economias tendem para regimes autocráticos e corruptos. A população em geral tende a ser pobre ou muito pobre. Ou, pior, é desprezada, controlada pelas elites muito ricas e lhes fornecem uma educação rudimentar, inconsistente ou enganadora. Por exemplo, a população aprende a memorizar, mas não a pensar e a interagir, a cultura é desprezada, para não colocar em causa o poder dominante. A maioria da população mundial vive sob este modelo socioeconómico (o mesmo mapa).


Software


Trata-se de um ativo de facilitação, ligação e coesão entre humanos e que suporta os seus processos sociais, institucionais, económicos. Agregou a espécie humana numa entidade com capacidade para produzir mais e prosperar; exponenciou o conhecimento e a interação comuns através de redes; incrementou a confiança de todos em todos. Funciona como uma espécie de cola entre humanos, um fermento social que alavanca ações e a cooperação. No âmbito económico é um optimizador de fluxos que criam a riqueza nas sociedades.

Configura-se no trabalho racional e institucional expressos em linguagem codificada (escrita, numérica ou gráfica). Tudo começou há muito com pequenas tábuas de argila com linguagem cuneiforme. No contexto atual, é o que pode ser expresso em bits, logo integra as tecnologias de informação, Internet ou a inteligência artificial. A sua interpretação é mais restrita do que a do hardware cuja leitura é dos sentidos. Cada código requer uma aprendizagem prévia e os canais de divulgação podem ser restritos.


O registo permite agregar os humanos em relações intergeracionais ou por vastas redes de cooperação, ampliando o conhecimento ou resultados. O registo de instruções (virtual) permite colar e prevenir a ação que acontecerá no mundo real. Abranger mais pessoas e processos em objetivos partilhados permite criar algo maior do que a soma de contributos individuais. São sinergias com valor. É na interação humana (fluxos de informação) que emergem ideias disruptivas ou mais extraordinárias, que se geram processos eficientes (planeamento e controlo) com a prevenção que permite minimizar custos e riscos enquanto, em simultâneo, cria muito mais valor do que é possível só no mundo material.


O trabalho racional que pode ser codificado expressa-se em meios como relatórios, planos, orçamentos, projetos, autos de medição, faturas. As instituições abrangem outra parte dos fatores formais (North, 1990) como são as leis, códigos, normas, impostos, contratos, além da regulação e execução pelo governo, autoridade tributária, tribunais, polícia.


Quanto à representação da riqueza, que se expressa nesta plataforma, encontra-se a moeda fiduciária e a moeda digital; as patentes e os segredos industriais; os títulos como as ações e obrigações; os registos de direitos de posse de propriedade; e até a cultura escrita e formativa de uma nação, expressa em museus, bibliotecas e universidades.

As economias que atuam ao nível desta plataforma tendem a ser democracias consolidadas. São populações que beneficiam de elevada equidade social e de formação (cívica e técnica). Como geram confiança, são o alvo preferido para atração do capital global para investimento. As instituições públicas cooperam com a economia de mercado, são eficazes e eficientes. Como padrão, as suas organizações aplicam critérios sistémicos de planeamento e controlo, focam a produtividade, investem e aplicam conhecimento técnico como marketing, procuram inovar (focam a investigação aplicada). São economias que beneficiam de alta produtividade e muito valor acrescentado. Controlam negócios de alto valor acrescentado como a logística (como é o caso da Dinamarca).


Mas, existe um lado negro!


O software pode ser um instrumento eficaz para armadilhar a sociedade. Uma economia muito dinâmica nas últimas décadas pode regredir no seu progresso a partir do controlo pelo Estado das liberdades de movimento e de expressão dos seus cidadãos levando-os a temer serem criativos e empreendedores. Ou, em sociedade livre, o Estado controla e esgota a economia privada para favorecer o setor publico. Um caminho efetivo de estagnação geral. No mapa abaixo, Portugal ocupa um mau lugar junto dos concorrentes ocidentais.


Observam-se em economias em transição do modelo produtivo baseado em mão-de-obra barata para um nível superior de criação de valor. Para manter o poder, esses governos utilizam o software institucional para controlar os cidadãos, promover no ensino um pseudoconhecimento (mais memorização do que aprender a aprender); promover um deficit de consciência cívica ou de competência financeira; adiar a reestruturação do setor público para manter o suporte politico, atraso que dá lugar à corrupção; ou, aplicar medidas de vigilância e medo sobre a população.


Um setor publico ineficiente ou ubíquo que compense as suas falhas ou estratégias de poder, tem custos extraordinários os quais são capturados à economia real (empresas e cidadãos) por impostos ou o controlo de empresas privadas. Tal tenderá a gerar perda de confiança do mercado global de capitais e investidores, exaurindo tais economias do capital vital tornando-se presas numa armadilha de contínua estagnação.


Portanto, o software é um instrumento sensível da economia. Tanto pode ser agente para a cooperação e interação positiva tornando-se o acelerador do crescimento, como pode ser um meio de controlo a favor de elites tornando-se travão de desenvolvimento de alto nível.


Humanware


O futuro está mais além do que a tecnologia, mas na própria humanidade (Leonhard, 2021). Aqui, a plataforma atinge o nível mais elevado de valor, claro na ótica humana. Afinal, o valor atribuído ao produto é percecionado pelo cliente final que é humano. Distingue-se da máquina (eficiente, objetiva) pela sua emoção, intuição, arte, originalidade disruptiva, consciência de si e de outros, empatia, solidariedade, cooperação, maleabilidade, relacionamentos e em ordem multidimensional (muito além da linguagem codificada).


O alto padrão de desenvolvimento social e económico requer abordagens a focar o humano. Está refletida na educação informal (civismo, ética, comunicação, cultura, criatividade) e na formal (técnica), e menos na memorização de conteúdos e treinos em que as máquinas podem fazer melhor. A tecnologia do software serve aqui como acelerador das virtudes humanas, mas pode ser um destruidor se for mal utilizado (exemplo das redes sociais).

O clube de economias neste padrão avançado é muito restrito.

Em regra, são países pequenos ou algumas cidades. A riqueza deve-se porque foca sobretudo na dinâmica e eficiência dos fluxos económicos (a forma mais poderosa de criação de valor) e baixo uso material. A maioria são estados democráticos que estimulam a interação social e liberdade de expressão, tem órgãos públicos eficientes (como a justiça), transparentes; os membros de governo são humildes e conciliadores.

Alguns apostam na investigação técnica aplicada (Taiwan), outros no ensino com foco humano (Finlândia). As estruturas de governo são parcas em gastos e transparentes (como a Suécia), com um foco no combate à corrupção (em 2021, Portugal ocupa o mau 33º lugar dos menos corruptos, pior que os seus concorrentes diretos)!


Os produtos de elevado conteúdo realmente humano acrescentam muito mais valor quando comparados com os que derivam da extração, trabalho manual ou muscular. E que podem ser substituídos por máquinas com custos decrescentes a tender para zero. Estas economias relevam atributos escassos como a consciência cívica, a competência técnica e investigação aplicadas (patentes), a criatividade (inovação disruptiva), o prestígio (marcas), o exclusivo (luxo), a inteligência (gestão de ativos, capital ou de intangíveis).

Os produtos económicos ligados ao humanware, suportados por software, são os paradigmas desta era. São muito desmaterializados, pouco dependentes do material no que se refere à quota no valor, reforçados por sistemas de informação e redes humanas. Por isso, os negócios com sucesso desta era são as GAFA, Uber, AirbnB ou similares.

Este modelo de negócio aposta na otimização de fluxos, seja entre humanos, sobretudo os catalisados pela Internet, mas também de bens e energia. Pode incluir-se a logística, o turismo, o ensino superior e a investigação científica.


Uma nova revolução social e económica a par da revolução industrial e crise ambiental?


A maioria das economias ainda extrai (quase) tudo do subsolo, esgotam o solo, escravizam ou submetem as populações com medo ou com impostos crescentes para pagar ineficiências ou a ganância dos seus líderes. No modelo instituído envenenam o ar e a água, matam toda a biodiversidade no mar e terra e condenam-nos a todos à extinção geral.


Os produtos dos humanos sempre dependeram dos três ativos, mas combinados em proporções diferenciadas. Atualmente expande um movimento de tecnologia de base inteligente, muito desmaterializada e reciclável em áreas como a biologia, genética, nano, energia, inteligência artificial, computação e outras novas sempre a surgir. Ao longo dos séculos, na quota-parte do valor, o produto foi dependendo cada vez menos da matéria, incutindo mais saber e criação disruptiva. A pressão devida às alterações climáticas e ambiente poderá acelerar este movimento.


Infelizmente, o clube de países capazes de atingir o alto nível de progresso socioeconómico deverá ser restrito.

Será difícil mudar em tempo útil a maioria das economias atribuindo capacidades de humanware aos seus cidadãos. Para os líderes de Estado e empresas será difícil prescindir do seu poder absoluto e privilégios, além de desmaterializar, desburocratizar, desbloquear, aceitar a disrupção e prescindir do status-quo.


Para a humanidade sobreviver, o modelo económico geral terá de ser menos mecânico a extrair e exaurir o ecossistema. A abordagem deverá ser bioeconómica, simular a natureza com uso da inteligência, dos nutrientes banais e disponíveis e a muita radiação solar.



Lisboa, 22 de novembro de 2021


João Correia Gomes (Ph.D., Mestre em construção, Engenheiro civil)


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