• João Correia Gomes

SUSTENTABILIDADE OU A EXTINÇÃO? A OPÇÃO CRUCIAL ESTÁ EM ABERTO!

“A evolução é mais inteligente do que tu”

Segunda Regra de Orgel


A presente invasão da Ucrânia pela Rússia, isto dentro da “civilizada” Europa, apenas aponta o quanto longe estamos do objetivo para um mundo sustentável. Ou, aquela tábua de salvação para um futuro prospero, muito além da mera sobrevivência.

Demonstra que se mantêm nos modernos humanos atuais aqueles instintos extrativos e predatórios típicos do caçador-recolector de há 100.000 anos quando a sobrevivência dependia de pequenas guerras tribais. Parece que pouco mudou, apenas a tecnologia que é hoje mais eficiente e devastadora.


A este comportamento primitivo latente junta-se a prática comum no uso dos recursos naturais e materiais, em cuja exploração prevalece os interesses mercantilistas de ganhos individuais de curto prazo. Desvalorizando os efeitos destrutivos sobre a natureza (inclui humanos). Portanto, não se estranhem todos os fenómenos sobre o planeta que podem levar a extinção da vida, incluindo humanos, se a natureza não os extinguir antes disso.

Está em causa todo um estilo de vida humana que se generalizou que extrai do que é limitado, transforma, digere a contaminar ou a expelir deita fora para o mesmo ambiente de que se alimenta e respira. Quando o corpo humano (um sistema aberto) assim vive é óbvio que irá adoecer e morrer em breve. O mesmo acontecerá ao sistema natureza em que vivem os humanos e dele fazem parte.

É um processo produtivo muito linear e até simples, limitado às ações específicas essenciais para obtenção da maior margem possível na transação com o mínimo custo. Despreza efeitos colaterais na Natureza na sua extração ou contaminação, tida como Bem Comum da humanidade disponível a custo zero. Não contabiliza os custos de guerra, exploração e perda de saúde dos humanos, sobretudo nas zonas de extração e de produção.


O modelo tem sido bem-sucedido (para alguns) porque não contabiliza estas externalidades ao negócio e geram a degradação geral. São processos produtivos de alta variação entrópica e baixa eficiência, sobretudo quando usa mais musculo do que inteligência, ou seja, pouca engenharia. Com este modelo produtivo muito linear e unidirecional, sem reversibilidade, está a acelerar o esgotamento de recursos materiais internos combinado com a liquidação do ecossistema para satisfazer as necessidades e desejos crescentes da população humana. O fim será assim breve!?


Claro que existe sempre esperança (ler artigos “Prosperidade sustentável exige novo modelo económico” e “Imobiliário precisa evoluir para um modelo mais sustentável”).

O sistema Terra Natureza que integra os humanos deve ser sustentável, o que implica balancear com peso igual o ambiente, as pessoas (social) e a economia. A sustentabilidade pode ser entendida como a capacidade de satisfazer esses requisitos sem comprometer a capacidade das futuras gerações para atingirem os seus próprios objetivos de vida similares aos atuais.

Na União Europeia, sobretudo, começa a existir alguma preocupação com o tema, e inicia a implementação de medidas de adaptação a um novo modelo. É o caso da crescente imposição de critérios ESG (Environmental; Social, Governance) para avaliação e condicionamento das atividades económicas. Todavia, mesmo estas medidas podem revelar-se tardias e pouco relevantes se for apenas a Europa a agir e se ação não prevê mudar os processos produtivos.


A ação isolada da União Europeia (EU) terá baixo impacto se as restantes economias industriais não aderirem, o que parece ser o caso, pois a ambição domina. A EU é responsável por apenas 7,5% das emissões de CO2, enquanto o conjunto das outras economias industriais (China-EUA-India-Japão) contribuem em 60 % para essas emissões (Garrett, 2022). Como não existe grande vontade geral para a mudança, pode contar-se com um destino fatal.


A irrelevância dos critérios ESG será evidente a manter o mesmo status-quo produtivo. Apenas serviria para agravar custos de produção e excluir a maioria dos humanos da merecida ascensão social de que beneficiam há décadas. Para sobreviver, toda a humanidade precisa de experienciar uma revolução (já não há tempo para a evolução nem para guerras mundiais) quanto ao modus vivendi e nos processos produtivos.


A fonte de inspiração está na própria Natureza. Os seus produtos são muito mais avançados do que os conseguidos pelo Homem, embora este que se julga o cume do processo evolutivo. A natureza produz VIDA e INTELIGÊNCIA CONSCIENTE nos próprios humanos enquanto estes descobrem a genética e criam os primeiros robôs toscos (e não conscientes).

Para tais produtos muito sofisticados, a Natureza não precisa de fósseis para extrair energia nem de materiais raros muito difíceis de obter, logo muito caros. Apenas extrai nutrientes de matéria banal e acessível (solo) que recicla em contínuo para obter os mesmos nutrientes nos sequenciais ciclos de vida. No processo combina com fluxos de energia solar e de água em processos bioquímicos que desenvolveu em muito mais do que triliões de interações ao longo de milhões de anos.


Para alavancar com eficiência o uso da matéria disponível, e escassa, a natureza compensou com a codificação de informação que criou através de fluxos entre os imensos organismos que foram evoluindo, desde bactérias a humanos, que na interação se influenciam e se adaptam aos ambientes que mudam continuamente.


A Natureza preserva e evolui nos seus processos através de informação codificada como o ADN (vida) ou neurónios (inteligência orgânica consciente). A arquitetura do cérebro humano funciona mais como o mercado do que como um politburo (Dennett ,2021) em que os mais do que imensos neurónios interagem e registam memórias, memes, palavras, evoluem e criam consciência.

O sentido é do mercado perfeito que é participado por infindos agentes, sendo que nenhum deles tem poder de influenciar ou ditar as suas condições sobre os outros. É um pouco o que se passa com a Internet com milhões de participantes a criarem algo como a Mente.SA (Al Gore, 2013). A versão contrária é a do politburo em que a decisão sobre o global pertence a um número limitado de agentes como se observam nas autocracias, como a russa (que invadiu a Ucrânia, o que mostra quanto longe estamos de um modelo sustentável de alta criação de valor).


A economia e sociedade humana deverá inspirar-se para um modelo semelhante que, na criação de valor, privilegie mais o uso de inteligência, da interação e de linguagem codificada por meios de baixa energia e grande fluidez. Só assim poderá ultrapassar a escassez material do planeta em que vive toda a biodiversidade. A tecnologia atual permite já abordagens deste tipo cada vez mais desmaterializado, diferente do que acontecia no passado. Irá insistir-se nas atuais tecnologias baseadas no silício (computadores, redes e inteligência artificial), mas o futuro estará cada vez mais nas baseadas em biotecnologia (CRISPR) e nanotecnologia.

A produção humana sempre se baseou nos três fatores hardware, software e humanware. Terá de retirar-se peso ao primeiro (com forte dependência material) e compensar nos outros dois, sobretudo o fator humanware, pois a principal mudança está na atitude e cultura humana. A humanidade deve deixar de comportar-se como um organismo devorador, uma espécie de parasita ou de cancro na ótica da Natureza, para se tornar uma espécie que colabora e cria sinergias com o ecossistema a que pertence e onde vive.

Quando a atitude mudar do consumo ávido e desenfreado para o uso partilhado e colaborativo, emergirá um modelo de produção mais desmaterializado e inteligente que reduz o desperdício, recria, reaproveita, readapta (aqui o prefixo “re” ganha importância). Interessa um modelo baseado em fluxos de ciclo contínuo, sem fins materiais, que se desenvolve no tempo. Focaliza-se no processo e não no material (cuja transformação é também um processo) para criar um valor muito superior aos custos materiais. Algo semelhante ao corpo humano vivo.


No próximo artigo, este tema será desenvolvido para a reabilitação sustentável, um tipo de intervenção compatível com a nova abordagem que se exige.


Lisboa, 25 de fevereiro de 2022


João Correia Gomes (Ph.D., Mestre em construção, Engenheiro civil)


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