• João Correia Gomes

UMA RECESSÃO!? CICLOS DE MERCADO? SÃO PERTINENTES?!

Atualizado: 20 de mai.


Os ciclos existem na Natureza, corpo humano, mercado ou economia. São condição para a sustentabilidade de processos complexos, sobretudo aqueles que funcionam como sistemas (Gomes, 2022). A sustentabilidade exige antes processos próprios de adaptação, autorreforço e evolução. Não é a robustez que permite resistir às sucessivas mudanças ambientais.


A Natureza, o corpo humano, o mercado e a economia prosperam através da interação livre, mas regrada, dos seus imensos agentes – elementos naturais, seres vivos, células, bactérias, neurónios, consumidores, produtores.


Refere Spitznagel (2013, pp 203) que “…No seu estado natural, um sistema – seja uma floresta ou um mercado – atinge o seu equilíbrio por meio da direção e orientação internas, as quais dependem da capacidade do próprio sistema em se comunicar internamente e reagir às mudanças através das interações dos seus múltiplos agentes, sejam compradores e vendedores de um mercado; árvores e predadores herbívoros (especialmente fogo) na floresta; ou, empresários a decidirem quando e como serem cada vez mais eficazes para satisfazer o que procuram os seus clientes.”



Trata-se de uma capacidade flexível para ultrapassar obstáculos e não de uma robustez (rígida) contra a envolvente. São processos dinâmicos, inquisitivos e reativos que se relevam por modelos versáteis que permitem o autorreforço. Pode ser entendido como um espelho do que é tido como frágil e que Nassim Taleb (2012) identifica como antifrágil.

Spitznagel (2013) propõe que a capacidade superior provém da homeostasia desses sistemas que, pela sua própria natureza, funcionam por fluxos, se autocorrigem para não desviar muito do equilíbrio. Não são estáticos, pois dependem de processos contínuos de deteção, de reequilíbrio e reajustamento a partir das informações disponíveis, as quais se obtêm pela contínua auto-monitorização.

A condição de ser antifrágil revela-se na capacidade de cada sistema responder a adversidades e à mudança, em sustentar-se, em criar mais vida ou valor, às vezes com um ritmo exuberante.


Num sistema aberto e vivo, o valor criado é muito superior ao custo total das componentes. Tanto a Natureza (Vida) como a Inteligência (Humanos?) são prova dessa excecionalidade.


Os mercados que atuam globalmente, com menos interferência de interesses particulares (governos ou lóbis), têm dado provas de muita eficácia ao retirar milhões de humanos da pobreza extrema. As economias mais prósperas são aquelas em que os agentes beneficiam da maior independência em relação a intervenção externa. Com ações mais ou menos bem-intencionadas as autoridades tendem a distorcer os resultados que deveriam ser “naturais”. Por essa razão a maioria das nações é pobre, já que essas elites usam a estrutura institucional (legislação, licenciamento, impostos) para condicionar o mercado e os modelos económicos. Apesar das boas intenções utópicas, com o poder, as elites podem tentar beneficiar-se, ou seja, degeneraram para a corrupção e incompetência endémica (não faltam exemplos). Os fluxos de informação e capital são restritos a poucos privilegiados o que prejudica a economia próspera que vive da interação de muitos, quanto mais melhor.


A interação é uma lei da Natureza (Spitznagel, 2013, pp 39).


Na interação com a envolvente, tanto o ecossistema como o corpo humano vivo caracterizam-se por contínuos ciclos, nem sempre iguais, mas quase sempre dentro de certos limites ou padrões. Desde o movimento dos planetas à renovação celular, da energia que flui por todo o universo aos impulsos eletromagnéticos entre neurónios, das correntes atmosféricas ou marítimas à circulação sanguínea, a resposta dos sistemas passa intensos fluxos entre unidades básicas. Os fluxos alimentam as unidades com informação, energia e nutrientes, reagindo rápido às pequenas distorções face aos padrões reconhecidos.


Na maioria das situações correntes geram-se pequenos ciclos de ação-reação, em limites pré-determinados, gerando baixa distorção. Perante eventos externos desconhecidos que podem gerar grandes distorções, a reação do sistema para o combate tende a ser agregada e incisiva. Caso vença este novo obstáculo ou perigo, o sistema melhora então a capacidade defensiva para eventos futuros (melhora a gestão de risco). O corpo humano é um bom exemplo. Se for invadido por vírus desconhecido, o sistema imunitário reage e cria novos mecanismos de defesa (ou então é derrotado com a morte).

A natureza expressa pelo mercado e a economia beneficiaria com a qualidade de ser orgânica. O mundo funciona como uma matriz de milhares de milhões de humanos que se influenciam mutuamente e podem interagir nas suas várias redes por onde fluem pessoas, bens, energia, informação, capital. São assim como sistemas vivos, dinâmicos, similares à Natureza e Vida.

Se não existirem restrições a condicionar esses fluxos, todos esses grupos irão agir e reagir aos fenómenos que emergem nos seus ambientes envolventes.


Tal como as bactérias ou neurónios do corpo humano, os agregados de humanos não são sociedades estacionárias que não criam valor. Pelo contrário, tendem a ser sociedades vivas onde imperam os vários tipos de transações, e não apenas comerciais. Os ciclos emergem naturalmente porque não é possível prever antecipadamente os níveis de necessidades funcionais de todos como cidadãos e consumidores. Os agentes produtores de bens e serviços vão ajustando a oferta aos níveis que detetam na procura. Tudo inicia num nível muito micro (local), baseado na sensibilidade e deteção in loco, e depois se estende a todo a sociedade humana.


Sem restrições dos referidos fluxos, sobretudo os de informação e capital, é provável que o binómio ação-reação atue rápido logo ao pequeno sinal, gere ciclos curtos e menos voláteis. O mercado ou economia poderiam evoluir com menos sobressalto. Os agentes interligados tendem mais a influenciar-se mutuamente e a inovar. Na realidade, a criação de valor nesta era de transformação digital deve-se mais a estes extras criativos e conhecimento, derivados da comunicação fluída, os quais geram efeitos secundários multiplicativos de ordem muito superior às capacidades intrínsecas de cada indivíduo.


A fluidez de informação e capital sem entraves entre os muitos agentes permitiria criar valor num ritmo acelerado, com resultados não-lineares similares aos dos sistemas naturais (que criam muito com muito pouco). Todavia, a realidade não é tão perfeita e cristalina. Emergem entraves e intervenções por agentes de poder que criam enormes distorções e dificultam tal evolução eficiente. A economia global até evolui, mas com muita dor, ineficiências e perdas. Assim, os ciclos tendem a extremar-se. Os valores crescem demais para depois caírem em profundos ajustamentos de forma abrupta.


O capital é o principal ativo que flui por todas as sociedades humanas atuais.

É o que impulsiona a pesquisa e desenvolvimento, a modernização de indústrias e processos, a criação de novos produtos, a melhoria dos sistemas de distribuição para levar os produtos aos consumidores. E há apenas uma fonte desse capital: a poupança (Spitznagel, 2013, pp 125). A melhor forma de entender a importância dos fluxos de capital é pela observação da economia americana, talvez a menos condicionada e distorcida pelas intervenções públicas (não tanto financeiras).


Como base de estudo considere-se o índice S&P 500 nos últimos vinte anos (as 500 maiores empresas registadas nos EUA). Verifica-se que, nos últimos 30 anos, o índice valorizou 10 vezes (∆=1000%) enquanto pela inflação os preços apenas duplicaram (∆=96%). O efeito multiplicativo impressiona. Ao longo do tempo observam-se pequenos e curtas correções que traduz baixa volatilidade (risco aceitável). Mas, tais pequenos ciclos agregam-se em outros mais longos e profundos. Estes são apenas ajustamentos necessários para corrigir as atitudes exuberantes do mercado.


Os ciclos intermédios são os principais responsáveis pela (grande) volatilidade do mercado. Refletem sobretudo as distorções introduzidas por eventos externos e aos comportamentos excessivos dos agentes. A maioria ganha e perde (ainda mais) devido à visão de curto prazo. É mais imediatista e não tem paciência. Quando é próximo e tangível sente mais e tende a exigir maior compensação (conceito de desconto hiperbólico).

Perde na escassa racionalidade que tende a desprezar a pertinente análise do investimento (mais fundamental do que técnica) e privilegia-se o palpite intuitivo (quase sempre errado).

Ou, então pior, segue os outros (usual comportamento de rebanho) cujos critérios de análise e seletividade desconhece. Quase sempre, a atitude da maioria tende a ser mais emocional do que racional, muitas vezes ilude-se pela ganância ou o otimismo cego, e depois resvala para o pânico e até a depressão.

São vieses humanos que contam muito para o mercado (Kahneman, 2011).

No último século as maiores crises emergiram após períodos de cegueira no investimento. Quase sempre com origem em palpites exagerados da maioria no mercado em tecnologias emergentes, exceto nas crises de petróleo da década de 1970. A crise de 1929 é consequente à aposta na crescente indústria automóvel. A crise de 2000 é consequente à aposta nas empresas “.com” que emergem com a Internet. A crise de 2008 é consequente à aposta no imobiliário estendido a segmentos de baixo rendimento (sub-prime) devido produtos de titularização de hipotecas mal regulados (e pouco transparentes).


A próxima crise parece ter iniciado.

Deverá ser consequente à aposta nos negócios baseados em smartphones cujo alto valor bolsista se capitalizou por conta de procura baseada no crédito de juros mais do que baixos. Um benefício ilusório (ou artificio) que está a terminar com a subida das taxas de juro e pode levar ao pânico para uma estrondosa queda histórica, já que a valorização bolsista ultrapassa o que aconteceu no passado em comparação com o PIB.


O que irá acontecer?


Lisboa, 18 de Maio de 2022


João Correia Gomes (Ph.D., Mestre em construção, Engenheiro civil)


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