• Helena M Ramos

ÁGUA DIGITAL



As concessionárias do sector da água são entidades reguladas, cujos objetivos principais são atender aos rígidos requisitos regulamentares para proteger a saúde pública e o meio ambiente e fornecer serviços a preços razoáveis ​​e justos. Essas concessionárias enfrentam desafios crescentes na operação, manutenção e renovação de suas infraestruturas, que incluem estações de tratamento, instalações de armazenamento, redes de captação, transporte e distribuição e outros componentes críticos que fornecem água potável, água para a indústria e recolhem e tratam as águas residuais. Quais os verdadeiros desafios? Porque a água (abastecimento de água e drenagem e tratamento de águas residuais) é uma indústria de capital e energia intensiva, cujo consumo energético no sector da água afecta cerca de 60 a 80% dos custos totais. Estas infraestruturas precisam de energia para produzir água, assim como a energia hidroeléctrica precisa de água para produzir energia. Este binómio leva a uma análise integrada num “nexus” entre água e energia.



Ao longo de décadas de pouco investimento no sector da água, as entidades gestoras deixaram um legado de infraestruturas com problemas crescentes associados a elevados níveis de perdas, que em determinados municípios pode atingir valores de 70% da totalidade da água captada. As redes de água já contam com muito tempo de funcionamento, onde uma parte significativa já atingiu a sua vida útil - tornando-as mal equipadas para atender a requisitos regulatórios e padrões ambientais mais rígidos, com populações crescentes que se expandem para outras regiões ou se acumulam em centros urbanos, que induzem o aumento do consumo, dos serviços prestados pelas entidades gestoras no que diz respeito ao tratamento, abastecimento e drenagem de água, que poderá ficar condicionado, com a ocorrência de eventos climáticos extremos e com a redução de concessões ou subsídios.



A água digital tem o potencial de ajudar as concessionárias do sector da água, a reduzir os seus custos, o que ajudará a melhorar e a manter as suas infraestruturas e a reduzir a lacuna financeira de investimento necessário à manutenção, reparação, renovação dessas infraestruturas essenciais.

(adaptado de “Digital Twinfrastructure: Delivering Maximum Value for the Water Industry” Paul Boulos, Chief Executive Officer at Digital Water Works, Inc.)


Este novo modelo da água digital é capaz de simular com precisão a operação desses ativos, o seu ambiente circundante e como eles interagem em tempo real. Isso permite que os consumidores testem com segurança uma ampla gama de cenários "o que acontece se?", visualizem e comparem os resultados - sem interromper as operações diárias - para otimizar o desempenho do sistema. Essa interdependência também significa que as medidas de eficiência em uma área têm o potencial de induzir eficiências adicionais em outras, permitindo a otimização em todos os ativos da infraestrutura de redes de água - desde as operações das estações de bombagem e tratamento, até às redes de drenagem e abastecimento. O modelo permite também que os utilizadores identifiquem riscos de forma proactiva, evitem problemas potenciais em tempo real, desenvolvam novas oportunidades e informem decisões futuras e até mesmo projectem o seu futuro: reduzindo quebras no abastecimento; minimizando a sua frequência; o volume de inundações por falta de capacidade de vazão; ou até maximizar a preparação para a drenagem adequada evitando inundações, incluindo a determinação de acessos seguros ou rotas de evacuação, bem como o tempo previsto em que essas instalações críticas serão afetadas, são alguns dos muitos benefícios que as concessionárias podem obter com estes modelos denominados de água digital.


Os grandes desafios hídricos do presente e futuro, nomeadamente as alterações climáticas, o crescimento populacional, a crescente urbanização e o envelhecimento e sobrecarga de infraestruturas, infligem uma pressão significativa nas redes de água. A indústria da água, e em particular as concessionárias de água, precisam de se adaptar para atender aos consumos emergentes de um ambiente dinâmico, altamente desregulamentado e competitivo no contexto de um clima em mudança. Em tal ambiente, as concessionárias de água precisam de continuar a fornecer serviços essenciais, incluindo água potável segura e protegida, de gerir as águas pluviais e as residuais.

Lidar com esses desafios contínuos e crescentes, requer uma transformação digital para otimizar os seus processos e a eficiência operacional. Na verdade, esses desafios e sua complexidade crescente exigem uma mudança de paradigma para a próxima geração de sistemas de água, além da infraestrutura tradicional de água e esgoto. O desenvolvimento de novos sistemas tem como pano de fundo sistemas ciberfísicos, digitalização e big data, onde software, sensores, processadores, geradores, tecnologias de comunicação e controle estão cada vez mais integrados, para permitir decisões informadas num mundo cada vez mais mutável, complexo e incerto que exige a análise, processamento e decisão com vista a soluções integradas, sustentáveis, eficientes e flexíveis.


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Helena M Ramos


Professora no IST Técnico Lisboa

Departamento de Engenharia Civil, Arquitectura e Georrecursos (DECivil), CERIS, Instituto Superior Técnico, Universidade de Lisboa;

hramos.ist@gmail.com e/ou helena.ramos@tecnico.ulisboa.pt


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