• Joaquim Nogueira de Almeida

A IMPORTÂNCIA DO PENSAMENTO CIENTIFICO

Atualizado: Set 14


A ENGENHARIA É FEITA DE MATEMÁTICA, FISICA, EXPERIMENTAÇÃO E MUITA TENTATIVA E ERRO.

JULGAR PELA OPINIÃO DA VOX POPULI É CADA VEZ MAIS PERIGOSO NESTA ÉPOCA DE REDES SOCIAIS


Depois de ter visto um video num post do Linkedin (disponível no fim deste artigo) decidi sair um pouco dos assuntos mais técnicos de que habitualmente escrevo e contar uma experiência que vivi há uns 35 anos atrás e que serviu-me de lição para muitos aspectos da minha vida pessoal e profissional.


Estava no ultimo ano do Técnico (IST), quando fui abordado no corredor do Pavilhão Central por uma jovem, que por coincidência foi uma ex colega do Liceu de S. João do Estoril, e que não via há uns 10 anos, não se lembrou logo de mim mas depois das reapresentações, disse-me que estava a fazer o curso de Psicologia e que estava à procura de alguns voluntários para uma experiencia para o seu trabalho de fim de curso e que já só faltava um voluntário.

Aceitei claramente fazer parte dessa experiencia, não só porque fiquei muito contente de a rever após tantos anos mas também porque sempre fui muito curioso sobre a psicologia e comportamento humano.


Na duvida, usa a Régua

Entrei numa sala de aula, que já estava cheia de "alunos" que estariam ali também angariados e eu era o ultimo porque só havia um lugar vago no fim da sala.

Os testes eram simples, eram desenhados 2 ou mais riscos no quadro, numerados por A, B ou C, e depois aleatoriamente perguntava-se a diversos "alunos" quais eram os maiores, podendo o aluno deslocar-se ao quadro para com uma régua para medir o risco.

As comparações fizeram-se talvez numa dúzia de vezes de diferentes riscos, em que eu respondia sempre com aquela que era a minha verdade, que por vezes era diferente mesmo de alguns "alunos" que iam ao quadro medir.

Como sempre fui bom a desenho e até tinha experiencia de fazer desenhos à escala à mão, estive sempre muito seguro da minha resposta, ficando a pensar que alguns dos "alunos" que iam ao quadro medir os riscos com a régua não sabiam ler uma régua.. As coisas foram andando e até achava algo cómico como é que tantos "alunos" não viam as evidências, mesmo depois de medirem com régua os riscos.


Por fim, num ultimo teste, foram colocado 2 riscos, diria se a memória não me falha, um por exemplo com 10cm e outro com uns 12cm.... para mim, continuava a ser evidente que o de 12cm era efectivamente maior. Mas desta vez muitos mais "alunos" foram solicitados a responder, talvez uns 12 ou 14, e muitos foram ao quadro e mediram os riscos e diziam que o de 10cm era maior. Quando chegou a minha vez a minha ex colega perguntou-me qual era o maior e eu disse, "bem parece-me que é o de 12cm mas umas 10 pessoas foram lá medir e disseram que era o outro, provavelmente estou errado". Lembro-me de ter pensado de que se calhar do fundo da sala e por haver uma pequena diferença de comprimento entre os riscos, talvez a minha visão estivesse a pregar-me alguma partida, para além de que era difícil acreditar que 10 pessoas não saberiam usar uma régua e se tivessem enganado.


Então ela perguntou-me "mas se estás com essa dúvida, não queres ir ao quadro e medir tu mesmo? " hesitei e acabei por dizer.... "não vale a pena, se os outros foram todos medir, eles devem estar certos."

Conclusão, na pergunta final, deixei-me enganar e mesmo contrariando interiormente aquela que era a minha percepção, disse erradamente que o risco de 10cm era... o maior.


Afinal, todos os "alunos" não eram alunos do Técnico mas sim alunos do curso de Psicologia, combinados para induzir com a força da multidão a decisão do individuo.


Mantive a minha percepção e opinião em todas as provas menos na ultima e fiquei depois muito decepcionado comigo mesmo, especialmente porque por orgulho não tomei a decisão de me levantar da cadeira e ir ao quadro confirmar aquilo em que acreditava.

Isto foi há 35 anos e fez com que eu me lembre sempre desde essa altura, que se a minha percepcção é uma e todos os demais dizem o contrário, devo ir mais fundo e tomar a acção de dar mais um passo e confirmar se a percepção é verdadeira ou não.

Na duvida, use a Régua.



Cabe aqui também referir que muito antes deste episódio, quando teria talvez uns 16-17 anos li um livro que foi muito importante para perceber a independência do pensamento individual perante a Multidão.

O famosos livro "PSICOLOGIA DAS MULTIDÕES" de Gustavo Le Bon. Se não leu ainda aconselho a ler.


O nome de Gustave Le Bon está associado a vários factos muito importantes do século XX. As suas considerações e estudos encorajaram a ideologia nazista. Por este motivo, especula-se que o livro MINHA LUTA, de Adolf Hitler, teve a sua inspiração na obra de Le Bon.


Gustave Le Bon nasceu em Nogent-le-Rotrou (França) no dia 7 de maio de 1841 e formou-se como médico, mas dedicou a maior parte de sua vida ao estudo da Sociologia, da Psicologia, da Física e da Antropologia. Foi médico militar durante a Guerra Franco-Alemã, e as suas primeiras pesquisas foram dedicadas à Fisiologia.

Cedo concentrou-se na Arqueologia e na Antropologia.

“Pensar coletivamente é a regra geral. Pensar individualmente é a exceção”. – Gustave Le Bon –

O próprio governo francês mandou-o ao Oriente como arqueólogo onde visitou um grande número de países dessa parte do mundo. Também viajou muito pela Europa e África. Como consequência das suas pesquisas e observações, começou a escrever uma série de livros. O mais famoso deles foi Psicologia das Multidões.


Infelizmente grande parte da obra literária de Gustave Le Bon foi dedicada a justificar o colonialismo das potências europeias. O seu principal argumento para isso é a justificação de que existem raças superiores.

Le Bon estava convencido do determinismo geográfico. Esta doutrina sugeria, essencialmente, que só sob certas condições geográficas poderiam aparecer homens e mulheres verdadeiramente inteligentes, belos e moralmente desenvolvidos. Essas condições eram as da Europa, e a raça superior era a “raça ariana”.


A sua argumentação básica defendia a ideia de que os seres humanos desenvolviam coletivamente comportamentos que jamais teriam individualmente. Por outras palavras, os grupos acabam por ter uma influência definitiva sobre os indivíduos.

Ele indicou que as principais razões pelas quais o “eu” se perde dentro do “nós” são as seguintes:

  • O ser humano percebe a multidão como um poder invencível. Então, ele deixa de se sentir responsável porque, nela, é uma figura anônima.

  • As multidões contagiam a maneira de sentir e agir daqueles que a formam. Isso acontece de forma inconsciente, e permite que a multidão seja manipulada por um líder.

  • A multidão hipnotiza o indivíduo. Fazer parte de uma multidão leva as pessoas a experimentar sentimentos de onipotência.

  • Na multidão, o irreal predomina sobre o real. Ela é compacta e não se desfaz devido às diferenças internas.

  • A multidão sente que é um mecanismo de sobrevivência. Não pertencer à multidão é visto como um grave perigo.


Vale lembrar que o próprio Sigmund Freud escreveu um livro inteiro para julgar a obra Psicologia das Multidões, de Gustave Le Bon. A obra de Freud se chama Psicologia das Massas e Análise do Eu.


Apesar de Gustave Le Bom se definir como um democrata, o certo é que as suas argumentações encorajaram notoriamente a ideologia nazista, o fascismo, o comunismo e todos os sectores derivados dessa ideia principal.

Le Bon sugeria que as multidões eram um rebanho servil e que, por isso, elas não poderiam existir sem a presença de um chefe. Indicava que esse chefe ou líder devia ser alguém com uma forte personalidade, crenças muito bem definidas e uma vontade poderosa.


Por outro lado, os argumentos de Le Bon sobre o inconsciente alcançaram uma grande difusão e notoriedade. Nesse terreno, ele fez importantes contribuições que, por um lado, foram retomadas pela estrutura de propaganda nazista. Por outro lado, fundaram as bases importantes para a atividade publicitária.

Gustave Le Bon morreu em 1931. Provavelmente, ele nunca imaginou que as suas argumentações iriam servir para encorajar o Holocausto Nazista. Seguramente nunca lhe teria passado pela cabeça de que o seu próprio país, a França, ia ser vítima da discriminação da “raça ariana”.


Acha que as teorias de Le Bon estão desactualizadas?

Pense de novo!




Joaquim Nogueira de Almeida

Joaquim.N.Almeida@gmail.com

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