• Joaquim Nogueira de Almeida

EXISTE BURNOUT NOS TRABALHADORES DA CONSTRUÇÃO CIVIL?



Fiz uma grande parte da minha vida profissional enquanto Engenheiro Civil em Obra. Desde Director de Obra, Director de Produção e Sócio Gerente de uma pequena empresa de Construção. Mais recentemente fui Director de Projecto Adjunto numa grande obra dum consórcio Franco Argelino.


Desde o inicio do meu trabalho em obras, constatei a dureza de condições de trabalho a que habitualmente os trabalhadores da Industria da Construção Civil (ICC) estão sujeitos e acompanhei a transição de um formato da ICC sem Subempreiteiros para um formato com uma grande pulverização de Subempreiteiros.


Esta alteração de formato organizativo com muitos subempreiteiros, trouxe muitos benefícios do ponto de vista de gestão financeira das obras reduzindo as incertezas de custo para o Empreiteiro Geral, já que este só paga o trabalho realizado.

Igualmente, trouxe uma maior competitividade na produção e fez com que o mérito dos trabalhadores fosse mais recompensado financeiramente, pois quem produz mais por norma recebe mais.


Sou defensor da meritocracia, mas também acredito que deva existir alguma protecção social nos momentos de maior necessidade. Contudo a ligação directa de recebimento monetário à produção e com os preços esmagados que se constata muitas vezes, torna a ICC mais sujeita a muitos desequilíbrios que podem afectar não só a atractividade para estas profissões como os problemas pessoais, muitas vezes ignorados ou negligenciados pela rudeza de atitudes comum na ICC.


Pessoalmente tive várias situações em que subempreiteiros "perderam a cabeça" e em 3 ocasiões recorreram mesmo à ameaça com armas para tentar resolver a situação. Esclareço que foram situações do não pagamento do que requeriam, duas das situações por trabalho mal executado noutra até por trabalho não executado. Este tipo de situação, acaba por mostrar a incapacidade de muitos destes profissionais da ICC de lidar com crises financeiras e por isso alterarem o seu comportamento de forma inaceitável.


Julgo que este tipo de ocorrência tende a diminuir, pela maior maturidade dos proprios subempreiteiros, que pela via de uma organização do mercado, há um aumento da consciência das regras contratuais que ligam as duas partes.


Portugal é o 2º pior país da União Europeia no que respeita aos Acidentes de Trabalho na ICC (veja aqui), o que não abona nada para a maturidade da cultura de segurança dos nossos trabalhadores nesta área mas, desconheço se há algum estudo em Portugal sobre a saúde mental dos trabalhadores da ICC. E isto a propósito de um estudo a que tive acesso efectuado sobre esta matéria em Inglaterra.


Uma nova situação começa a ocorrer em trabalhadores que só recebem pelo trabalho feito, de, por exemplo, em caso de intempérie impedir que produzam, ou produzam pouco e que levam a uma diminuição acentuada de rendimentos e por isso a problemas financeiros graves nas suas vidas pessoais, com perdas que afectam a saúde mental dos mesmos que no limite se suicidam.


Começou a chover e Rob Muldoon culpou.se por isso. “Eu estava a culpar-me”, lembra o pedreiro de Manchester.
Olhando para a chuva a cair, ele pensou consigo mesmo: “Estou a falhar aqui”.
Ao tentar começar a trabalhar no estaleiro da obral, parecia que o clima roubou o seu dia de trabalho. Na época, como trabalhador autônomo, ele seria pago pela quantidade de tijolos que assentasse por dia e, como não poderia colocar nenhum com a chuva, não receberia. Ele lembra-se de como as coisas estavam completamente fora de seu controle e faziam sua mente girar “como um carrossel”.
“Acabei por colocar uma enorme pressão sobre mim mesmo para tentar realizar o trabalho de qualquer forma que fosse possível”, diz Muldoon.
Ele fala sobre outros dias em que trabalhou duro, apesar dos seus problemas de saúde mental. “É uma pena”, diz ele. “Você apenas tem que desligar. E tudo o que você está a pensar é "Eu tenho que fazer isto, eu tenho que fazer isto, eu tenho que fazer isto'. E então quando você chega ao fim do dia, e você está sentado na carrinha ou no carro, ou no comboio ou no metro ou qualquer outra coisa para chegar em casa, você está em pedaços , e você tem que chegar a casa e compor-se. E então tenta fazer tudo de novo amanhã. E fazer de novo no dia seguinte, e assim por diante. E é miserável, absolutamente miserável. ”

A experiência de Muldoon é muito comum, visto que as estatísticas são claras e não estão a melhorar. O número de operários da construção que se suicidam continua teimosamente alto. Os trabalhadores da construção são bombardeados diariamente com pressão, causada por factores laborais e não relacionados ao trabalho. Em setembro de 2021, a Organização Nacional de Estatísticas (ONS) do Reino Unido, divulgou dados do ano anterior de 2020, que mostram que, para cada 100 mil operários da construção civil, 30 morreram por suicídio.


Pesquisadores da Universidade Caledonian de Glasgow, liderados pelo Prof. Hare, alertaram que as iniciativas destinadas a proteger a saúde mental dos trabalhadores da construção podem não estar a chegar aos que precisam, levando a um risco maior de suicídio.

As descobertas foram feitas depois de investigadores do Centro de Pesquisa para Gestão de Activos do Ambiente Construído (BEAM) ajudaram a desenvolver um 'painel' de bem-estar para a indústria, encomendado pela instituição de Caridade na Construção, o Lighthouse Club.

O painel é um banco de dados com dados mensuráveis ​​sobre segurança, saúde e bem-estar na construção e será atualizado anualmente, permitindo que as organizações da ICC, responsáveis pelas políticas do sector e pesquisadores visualizem as tendências, acompanhem o progresso das iniciativas da indústria e informem a tomada de decisões.

O trabalho envolveu a reunião de dados sobre suicídios para o período imediatamente anterior e subsequentemente após a Revisão Independente do Governo do Reino Unido sobre saúde mental 'Prosperando no trabalho' em 2017.


Uma análise das vítimas de suicídio por função revelou que o número de trabalhadores da construção civil por 100.000 aumentou de 26 para 29 nos quatro anos até 2019.

Os dados mostram que as taxas históricas não mudaram e as pessoas na indústria da construção têm três vezes mais probabilidade de cometer suicídio do que em outros sectores.

Também parece haver alguma variação entre certas funções dentro da ICC. Aqueles que trabalham em ocupações não manuais, como directores e outros profissionais qualificados, têm taxas mais baixas, e viram uma queda geral na taxa de pouco menos de 7 em 2015, para pouco menos de 5 por 100.000 em 2019. No entanto, trabalhadores manuais, viram a sua taxa aumentar de 48 para cerca de 73 suicídios por 100.000.


O Professor Hare disse: “Os trabalhadores não qualificados tendem a se enquadrar nas classes socioeconômicas mais baixas, que estão associadas à menor expectativa de vida em geral, e tendem a apresentar as características clássicas ligadas à saúde mental precária, como abuso de álcool e outras substâncias, problemas financeiros e de relacionamento e sofrem múltiplos eventos de vida stressantes”.



O professor Hare advertiu que estas são apenas as descobertas preliminares e que dados mais "profundos" são necessários para que factores como a idade possam ser controlados. Os dados utilizados ​​disponíveis eram apenas para Inglaterra e País de Gales, e a equipe espera também adicionar os da Escócia e Irlanda do Norte no devido tempo.

Pesquisadores liderados pelo professor Hare também estão a realizar uma revisão dos factores específicos de construção em torno do suicídio, financiada pela LCIC. Isto ajudará a informar o desenvolvimento de estratégias de intervenção da instituição LCIC.



Por outro lado, Bill Hill, CEO da Lighthouse Construction Industry Charity (LCIC), disse que Isto pode ser devido ao facto de que aproximadamente 53% dos funcionários são trabalhadores independentes, distribuidores ou subempreiteiros, e a mensagem não chegou à cadeia de fornecimento. Ainda mais preocupante é que estas estatísticas são pré-pandêmicas e não revelaram o impacto total desta situação até que os novos dados sejam divulgados este ano.“

O professor Hair comentou: “Este grupo ocupacional (trabalhadores manuais) tem geralmente uma taxa superior à média de suicídios, mas o aumento acentuado e o aumento das lacunas durante o período analisado são preocupantes, ao contrário dos colegas não manuais. E iniciativas recentes não alcançaram estes sectores mais vulneráveis ​​da indústria. “


O relatório "Prosperar no Trabalho", encomendado pelo governo do Reino Unido e produzido por Sir Stephenson e Mark Farmer em 2017, destacou o declínio da saúde mental na construção. Desde então, a indústria empreendeu muitas iniciativas para melhorar o bem-estar geral do sector. Mas, infelizmente, este último estudo mostra que os esforços de saúde mental que visam proteger os trabalhadores da construção podem não estar a alcançar aqueles que mais precisam deles.


A Lighthouse Construction Industry Charity (LCIC) fornece apoio emocional e de bem-estar gratuito por meio de três canais principais, incluindo uma linha de ajuda gratuita para a indústria de construção 24 horas por dia, 7 dias por semana e uma Aplicação On Line de ajuda e um treino de bem-estar gratuito. Em resposta a estas descobertas, a LCIC está a multiplicar os seus esforços com iniciativas mais activas para manter os trabalhadores da construção e suas famílias fora de perigo.


A campanha actual da LCIC para aumentar a consciencialização sobre a saúde mental na ICC, “Help in Hard Hats", está disponível para ajudar a comunidade da construção a pensar sobre o que está a acontecer "dentro do capacete".

A LCIC está a desenvolver uma rede nacional de “lugares seguros” para a comunidade da construção falar sobre os seus problemas num ambiente privado e confidencial. Eles são liderados por voluntários e fornecem uma rede de grupos de autoajuda administrados por pessoas experientes.


Um programa piloto de apoio à saúde mental será conduzido numa universidade em Londres para implementar uma avaliação positiva da saúde mental no início duma carreira na ICC. A Charity oferece formação de consciencialização em saúde mental para 1.000 aprendizes e treino de primeiros socorros em saúde mental para 100 formadores. A LCIC também está a trabalhar com a Rainy Day Trust para oferecer kits de ferramentas e laptops gratuitos para aprendizes que estão com problemas devido à acessibilidade de ferramentas e equipamentos de TI.


E em Portugal algum estudo foi efectuado?

As politicas de Higiene e Segurança no Trabalho contemplam estes problemas?

Que tal Proactividade em vez de Reactividade neste assunto?



Joaquim Nogueira de Almeida

Joaquim.N.Almeida@gmail.com

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