MULHERES NA CONSTRUÇÃO CIVIL
- Joaquim Nogueira de Almeida
- há 11 minutos
- 18 min de leitura

UMA MINORIA QUE CONSTRÓI O FUTURO
Em Portugal, Espanha, França, Itália e Reino Unido, as mulheres representam entre 7% e 15% do sector. Os números avançam — mas o estaleiro ainda tem muito trabalho a fazer.
Na semana passada comemorou-se o Dia Internacional da Mulher e foi um momento de análise da sua participação na Industria de Construção Civil é, em toda a Europa, o sector com menor representação feminina de toda a economia.
Em média, as mulheres representam entre 9% e 15% da força de trabalho do sector, dependendo do país mas quando se olha para os estaleiros propriamente ditos, o número cai para valores entre 1% e 7%.
Este artigo cruza, pela primeira vez em língua portuguesa, os dados actuais de cinco países europeus, Portugal, Espanha, França, Itália e Reino Unido, para construir um retrato completo e comparativo do lugar que as mulheres ocupam (e do que ainda não ocupam) na Construção Civil Europeia. Estatísticas, casos de uso reais, programas governamentais e iniciativas sectoriais: tudo o que existe, tudo o que falta, e o que pode mudar.
REPRESENTAÇÃO FEMININA NA CONSTRUÇÃO CIVIL — 5 PAÍSES EUROPEUS, 2024/2025
~9% Portugal (INE 2024, estimado) | 11,4% Espanha (OIC / Fundação Laboral, 2024) | 13,6% França (FFB, 2025) | ~9% Itália (ISTAT / ANCE, 2024) | 15,6% Reino Unido (ONS / CITB, 2024) |
O que os Números Não Mostram
A percentagem global de mulheres no sector, entre 9% e 16% segundo o país, encobre uma realidade muito mais desigual. Em todos os cinco países analisados, o mesmo padrão se repete, as mulheres concentram-se esmagadoramente em funções administrativas, de gestão e técnicas de escritório, enquanto os estaleiros propriamente ditos continuam a ser quase exclusivamente masculinos.
Em França, apenas 1,8% dos trabalhadores de obra são mulheres. Em Espanha, 6,2% das trabalhadoras do sector desempenham funções na obra e representam apenas 0,7% do total de trabalhadores nessa categoria. No Reino Unido, 81% das mulheres na construção estão concentradas em funções administrativas e de design, com apenas 1% nas profissões técnicas. Itália e Portugal seguem o mesmo padrão.
“Há dois sectores da construção:,o das reuniões de projecto, onde as mulheres já chegaram; e o do estaleiro, onde ainda mal entrámos.”
Enga Ana Espírito Santo
PORTUGAL

FIG. 1 — Portugal regista uma das taxas de mulheres no sector da construção mais baixas da Europa do Sul.
Em Portugal, os dados mais recentes do Instituto Nacional de Estatística (INE) estimam a representação feminina na construção civil em torno de 9% do total de trabalhadores do sector, um valor próximo da média dos países do Sul da Europa, mas claramente abaixo dos parceiros do Norte.
Um dado de 2020 citado pelo Sindicato da Construção Civil de Portugal é particularmente revelador: de 297 100 trabalhadores do sector, apenas 21 500 eram mulheres, 7,2% da mão-de-obra. O presidente da organização sindical classificou este número como "residual". A maioria concentrava-se em direcção de obra, higiene e segurança e fiscalização — raramente em funções de produção.
PORTUGAL — DADOS ESTRUTURAIS (INE/CIG, 2023-2024)
~9% Mulheres no sector da construção | 80,1% Homens nas áreas de TIC (mais masculinas) | 1/3 Diplomadas em Engenharia, Ind. e Construção |
A BRECHA COMEÇA NAS ESCOLAS
O Boletim Estatístico de Igualdade de Género 2024, publicado pela Comissão para a Igualdade de Género (CIG) com base em dados do INE e da DGEEC, revela uma das raízes estruturais do problema: nas áreas de Engenharia, Indústrias Transformadoras e Construção, apenas um terço dos diplomados do ensino superior são do sexo feminino. Uma situação que contrasta com áreas como as Ciências Naturais, Matemática e Estatística, onde as mulheres são maioria (60%).
No mercado de trabalho em geral, Portugal apresenta uma das taxas de emprego feminino mais altas da Europa (84% das mulheres entre os 25 e 54 anos estão a trabalhar, 4.º lugar da UE). Mas esta elevada participação no mercado laboral não se reflecte nos sectores mais masculinos. Na construção, o gap é estrutural.
GENDER PAY GAP NA CONSTRUÇÃO PORTUGUESA
Os dados da GEP/MTSSS (Gabinete de Estratégia e Planeamento do Ministério do Trabalho) mostram que, em Janeiro de 2024, a remuneração média mensal de ganho das mulheres na construção era de 1 233,53 €, contra 1 469,15 € para os homens, uma diferença de 16,1%. Uma assimetria que, segundo a CIG, não se explica por variáveis como o nível de qualificação, a profissão ou a antiguidade.
INICIATIVAS NACIONAIS EM DESTAQUE Apesar da ausência de um programa governamental específico para a feminização da construção civil, Portugal conta com o V Plano Nacional para a Igualdade de Género (2023-2026), que inclui medidas para promover a igualdade em sectores masculinizados. A FCT/UNL e o ISEL têm integrado progressivamente conteúdos de igualdade e diversidade nos currículos de engenharia civil.
A AICCOPN (Associação dos Industriais da Construção Civil e Obras Públicas) tem promovido debates sectoriais sobre atracção de talento, incluindo o tema da diversidade de género, no contexto das dificuldades de recrutamento que o sector enfrenta.
ESPANHA

FIG. 2 — Espanha regista a maior taxa de crescimento do emprego feminino na construção da Europa do Sul: +3,5% em 2024.
A Espanha é, entre os cinco países analisados, aquele que apresenta os dados mais completos e actualizados sobre a participação feminina na construção. O Observatorio Industrial de la Construcción (OIC), da Fundación Laboral de la Construcción, publica anualmente um relatório dedicado exclusivamente ao tema, um nível de detalhe que Portugal e Itália ainda não atingiram.
Em 2024, as mulheres afiliadas à Segurança Social no sector da construção espanhola atingiram 160 288 trabalhadoras, um máximo histórico desde 2014, representando 11,4% do total de pessoas ocupadas no sector. O crescimento da afiliação feminina em 2024 foi de 3,5%, superior ao dos homens (1,7%) e ao registado pelo conjunto da economia (3,3%).
ESPANHA — RELATÓRIO OIC / FUNDACIÓN LABORAL 2024
160 288 Mulheres afiliadas na construção (2024) | 11,4% Percentagem do total de trabalhadores | +3,5% Crescimento anual do emprego feminino | 6,2% Trabalham a pé de obra |
O PERFIL DA TRABALHADORA ESPANHOLA DA CONSTRUÇÃO
O relatório OIC 2024 traça um perfil detalhado: a trabalhadora típica tem 44,6 anos de idade média, possui maioritariamente estudos superiores (61,9%), é de nacionalidade espanhola (85,7%), trabalha em regime geral (73,6%) com contrato indefinido (92,8%) e a tempo inteiro (75,7%, seis pontos acima da média de todos os sectores). Um perfil altamente qualificado e estabilizado.
Mas o contraste com a realidade dos estaleiros é brutal: das 160 288 mulheres do sector, apenas cerca de 10 000 (6,2%) desempenham funções na própria obra. E este número diminuiu 1,1% face ao ano anterior. No total de trabalhadores de obra, as mulheres representam apenas 0,7%.
CONCENTRAÇÃO EM FUNÇÕES ADMINISTRATIVAS
Mais de metade das mulheres ocupadas na construção espanhola (57,5%) concentram-se em apenas cinco ocupações, quase todas de perfil administrativo: empregadas administrativas com atendimento ao público (16,6%), empregadas administrativas sem atendimento (15,8%), contabilistas e financeiras (14,3%), assistentes administrativas (6,2%) e arquitectas e engenheiras (4,6%).
CASO REAL DE ESPANHA
Fundación Laboral: O Programa «Educa en Igualdad»
A Fundación Laboral de la Construcción desenvolveu o programa Educa en Igualdad, que percorre escolas secundárias e centros de formação profissional em todo o território espanhol para desmistificar os ofícios da construção junto das raparigas. O programa inclui visitas a estaleiros reais, encontros com trabalhadoras do sector em diferentes funções, dos pedreiros à engenharia de estruturas — e materiais didácticos adaptados.
Em paralelo, a Fundación financia bolsas de formação específicas para mulheres em reconversão profissional para ofícios da construção, com especial enfoque nas instalações sustentáveis e na reabilitação energética, áreas em forte crescimento onde a procura de mão-de-obra supera largamente a oferta.
ENQUADRAMENTO LEGAL ESPANHOL
Espanha dispõe de um Plano de Acção para la Igualdad de Género en la Construcción, aprovado por acordo sectorial entre as confederações patronais (CNC, SEOPAN, CEPCO, ANCI) e os sindicatos (CCOO e UGT). O plano inclui obrigações concretas para as empresas com mais de 50 trabalhadores: planos de igualdade registados, auditoria salarial anual e medidas de conciliação.
FRANÇA
[
IMAGEM: Chantier de construction parisien. Femme chef de chantier avec casque et plans. Arrière-plan tour en construction. Style photographique. ]

FIG. 3 — Em França, as mulheres representam 13,6% do BTP em 2025, progressão de 5 pontos em 25 anos, mas apenas 2,9% nos ofícios de obra.
A França é o país europeu com maior produção de dados e estudos sobre a participação feminina do BTP (Bâtiment et Travaux Publics). A Fédération Française du Bâtiment (FFB), a Confédération de l'Artisanat (CAPEB), o Observatoire des Métiers du BTP e a Prévention BTP publicam regularmente relatórios específicos sobre o tema.
O dado mais recente: em 2025, as mulheres representam 13,6% dos assalariados do BTP, uma progressão de cinco pontos percentuais em 25 anos (eram 8,6% em 2000). A FFB e a U2P publicaram estes números no início de Março de 2026, reafirmando o compromisso sectorial com a paridade.
FRANÇA — FFB / OBSERVATOIRE DES MÉTIERS DU BTP 2025
13,6% Mulheres no BTP (FFB, 2025) | 2,9% Ouvriers de obra do sexo feminino | 22% Cadres do sexo feminino | 45,3% Empregados e técnicos do sexo feminino |
O PARADOXO DA CHEFIA FEMININA
Um dado francês surpreendente: mais de metade das empresas do BTP são dirigidas ou co-dirigidas por uma mulher. A CAPEB regista 800 000 artesãs activas em França (sobre 3 milhões de artesãos no total). Os grupos de "Femmes Dirigeantes" da FFB reúnem 3 000 membros em 94 grupos regionais. A participação feminina ao nível da liderança empresarial contrasta radicalmente com a quase ausência feminina nos estaleiros.
Por ofício, os dados são ainda mais inter: a carpintaria/madeira tem 22% de mulheres, a pintura 20%, a maçonaria apenas 2%. Nas coberturas e estruturas de madeira (charpente), menos de 1% dos trabalhadores são mulheres — o valor mais baixo de todo o sector.
INICIATIVA EM FRANÇA
Exception'ELLE — Os Companheiros Abrem as Portas
A Fédération Compagnonnique Lyonnaise lançou o projecto Exception'ELLE, uma série de workshops imersivos concebidos para mulheres, jovens, em reconversão, ou simplesmente curiosas, que querem experimentar os ofícios do BTP num ambiente acolhedor e sem pressão. Os ateliers decorrem na sede dos Compagnons du Tour de France (Lyon) e incluem sessões práticas de pedreiro, carpintaria, electricidade e pintura.
O nome é um trocadilho intencional: em francês, "exception" (excepção) e "elle" (ela) formam um neologismo que diz tudo, a mulher no BTP ainda é a excepção. O objectivo do projecto é, precisamente, acabar com essa realidade.
O QUADRO LEGAL, LEI RIXAIN E OBRIGAÇÕES SECTORIAIS
A Lei Rixain (2021) introduziu em França obrigações para a participação feminina dos postos de liderança. As empresas com mais de 1 000 trabalhadores devem ter 30% de mulheres em posições de responsabilidade até 2026 e 40% a partir de Março de 2029. O BTP, com as suas empresas de grande dimensão (Vinci, Bouygues, Eiffage), está directamente abrangido.
Em paralelo, a Constructys, organismo paritário de formação do BTP, registou em 2025 um crescimento de 150% nas acções de formação sobre IA e competências digitais no sector. No domínio da igualdade de género, o ritmo de crescimento das formações é mais modesto mas consistente, com programas específicos para mulheres em reconversão profissional para os ofícios do BTP.
PLATAFORMAS E REDES FEMININAS NO BTP FRANCÊS
Ellesconstruisent.fr, - plataforma que apresenta percursos inspiradores de mulheres no BTP,
Les Talentueuses du Bâtiment, campanha de visibilidade e reconhecimento profissional
#JesuisIngénieurE - campanha de promoção da participação feminina das engenharias
Batimix - associação de recrutamento de mulheres para o BTP
Cercle de Zaha - rede de mulheres lyonnaises na construção, arquitectura e paisagismo
BatiFemmes - primeiro rede de artesãs de acabamentos na Nova Aquitânia
ITÁLIA

FIG. 4 — Em Itália, as mulheres representam apenas 9% dos trabalhadores da construção, mas 12% se se considerar toda a fileira. A presidente da ANCE é uma mulher.
A Itália apresenta um paradoxo notável, é o país desta análise com a taxa de emprego feminino global mais baixa da Europa (57,4% em 2024, segundo o ISTAT, contra a média comunitária de 70,2%), mas tem nas suas associações de construtores um nível de liderança feminina que muitos países com melhores indicadores de igualdade ainda não atingiram.
A presidente da ANCE (Associazione Nazionale Costruttori Edili), Federica Brancaccio, é mulher. A presidente da Federcostruzioni, Paola Marone, é mulher. A presidente da Assimpredil ANCE (grande Milano) é Regina De Albertis. Um conjunto de lideranças femininas sectoriais sem paralelo em Portugal ou Espanha, que coexiste com números de presença feminina nos estaleiros que estão entre os mais baixos da Europa.
ITÁLIA — ISTAT / ANCE / ANCE ALLEY OOP 2024
~9% Mulheres no sector da construção (ISTAT) | 12% Incluindo toda a fileira (ANCE) | 68% Das trabalhadoras são empregadas de escritório | 4,5% São operárias de produção/obra |
A FILEIRA VS O ESTALEIRO
A ANCE distingue entre o "sector da construção" em sentido estrito (empresas directamente operacionais em estaleiro) e a "fileira da construção" em sentido alargado, que inclui arquitectura, engenharia, imobiliário e serviços conexos. Na fileira alargada, a representação feminina chega a 12%. No sector restrito, fica pelos 7%. Uma distinção que explica parte das discrepâncias estatísticas entre fontes diferentes.
O ISTAT confirma que a construção é o sector da economia italiana onde o trabalho irregular tem maior incidência (11,3%, embora em queda), um factor que complica a contabilização exacta da mão-de-obra feminina, dado que as mulheres estão sobre-representadas no trabalho informal e sazonal.
56% DAS ENGENHEIRAS CIVIS SÃO MULHERES
Um dado que destaca a Itália: segundo a Almalaurea, 56,2% das diplomadas em Engenharia Civil (ingegneria edile) são mulheres, um valor muito acima da média europeia para esta área. Esta participação feminina do ensino superior de engenharia civil não se traduz, porém, em representação proporcional no mercado de trabalho do sector, o que sugere que existem barreiras de entrada específicas no acesso aos estaleiros e às empresas de construção.
PROJECTO EUROPEU, ITÁLIA PARTICIPANTE
Women Can Build — UE 2017-2020
O projecto «Women Can Build», lançado em 2017 pela Comissão Europeia, foi uma iniciativa trienal para promover a igualdade de género no sector da construção, com particular foco na sensibilização das raparigas para as profissões de obra, na promoção do inserimento de perfis altamente especializados (especialmente em construção verde e reabilitação) e na adaptação dos métodos pedagógicos nos centros de formação profissional. Itália, França, Espanha e Portugal participaram no projecto.
Os resultados foram modestos em termos de números absolutos, mas o projecto criou uma rede de formadores e sensibilizadores que continua activa, e os seus materiais didácticos continuam a ser utilizados nos centros de formação profissional participantes.
INCENTIVOS AO EMPREGO FEMININO
A Filca (Federazione Italiana Lavoratori Costruzioni e Affini), o sindicato das construções da CISL, propôs formalmente um sistema de incentivos para as empresas de construção que contratem mulheres para funções de obra. A proposta, ainda em discussão com as confederações patronais em 2024, prevê a redução das contribuições sociais durante os primeiros dois anos de contrato para trabalhadoras afectadas a funções de estaleiro.
REINO UNIDO

FIG. 5 — O Reino Unido lidera entre os cinco países com 15,6% de representação feminina no sector — e é o que tem o programa de formação mais robusto (CITB).
O Reino Unido é o país desta análise com a maior representação feminina na construção civil (15,6% segundo dados do ONS para Q3 de 2024) e o que dispõe do sistema de formação e promoção sectorial mais desenvolvido. O Construction Industry Training Board (CITB), financiado por uma levy (taxa) obrigatória sobre os salários das empresas de construçãoo, tem uma estratégia explícita de atracção e retenção de mulheres no sector.
Em termos absolutos, o ONS registou no terceiro trimestre de 2024 aproximadamente 303 000 mulheres empregadas na construção, contra 1,76 milhões de homens. A proporção feminina cresceu dos 14% (2022) para os actuais 15-16%, impulsionada por um aumento de 37% de novas entradas femininas no sector.
REINO UNIDO — ONS / CITB 2024
303 000 Mulheres empregadas na construção (Q3 2024) | 15,6% Percentagem do total de trabalhadores | 37% Novas entradas no sector são femininas | +170% Crescimento de aprendizes femininas (2019→2024) |
O PROGRAMA DE APRENDIZAGEM, A MUDANÇA MAIS SIGNIFICATIVA
O dado mais encorajador do Reino Unido é o crescimento das aprendizagens femininas: em 2018-19, 340 mulheres completaram a sua aprendizagem na construção. Em 2023-24, esse número subiu para 930, um crescimento de 170%, segundo dados do CITB.
As mulheres representam agora mais de 15% das novas entradas em aprendizagens de construção, contra menos de 10% há uma década.
Ainda assim, as barreiras persistem. No topo da hierarquia, apenas 7% dos cargos de direcção e de conselho de administração nas empresas de construção são ocupados por mulheres (pesquisa Simian Risk, 2025). Nas profissões técnicas de obra (eletricistas, pedreiros, operadores de maquinaria), a presença feminina é de apenas 1%.
O CITB E O INVESTIMENTO DE £600 MILHÕES
Em 2024, o governo britânico anunciou um investimento de £600 milhões em formação para a construção, a ser executado ao longo de 2025-2029. O CITB, que levanta mais de £1 mil milhões durante esta legislação, através da levy sectorial, tem um plano estratégico 2025-2029 com três eixos: atrair talentos diversificados (incluindo mulheres), simplificar o sistema de formação e responder às necessidades futuras de competências. O programa financia anualmente 40 000 estágios em estaleiro para estudantes de NVQ, BTEC, T-level e aprendizagem avançada.
INICIATIVAS · REINO UNIDO
Women into Construction, NAWIC UK e Women in Property
O ecossistema de apoio às mulheres na construção britânica é o mais desenvolvido de qualquer dos cinco países analisados. As três principais organizações são: Women into Construction (WiC), que oferece mentoria, colocação em estágio e apoio à reconversão profissional; NAWIC UK (National Association of Women in Construction), que representa e advoga pelos interesses das trabalhadoras do sector; e Women in Property, que actua na intercessão entre o imobiliário, a promoção e a construção.
Em conjunto, estas três organizações oferecem mentoria, networking, bolsas de formação, colocação em estágio e programas de desenvolvimento de liderança para mulheres em todos os níveis da carreira na construção.
O CITB apoia financeiramente programas de formação exclusivamente femininos, considerando-os uma estratégia legítima e necessária para corrigir o desequilíbrio histórico do sector.
Maior ecossistema de apoio a mulheres na construção da Europa
O PAY GAP BRITÂNICO É O MAIS ELEVADO DO SECTOR
O Reino Unido apresenta um paradoxo, é o país com mais mulheres na construção, mas também aquele onde a diferença salarial de género é mais elevada. Segundo dados do ONS de 2024, o gender pay gap mediano no sector da construção britânico é de 23,7%, contra uma média nacional de 14,3%. Em algumas das maiores empresas do sector, a diferença pode atingir 33%. Apenas 50% das trabalhadoras do sector alguma vez tiveram uma gestora ou directora mulher.
Comparação Cruzada E O Que os Dados Revelam
A análise comparada dos cinco países permite identificar padrões transversais e contrastes relevantes que uma análise por país não captura.
🇵🇹 PORTUGAL
~9% — da construção é feminina
Baixa representação, gap salarial de 16,1%, ausência de programa sectorial dedicado
🇪🇸 ESPANHA
11,4% — da construção é feminina
Melhor dado desde 2014, crescimento mais rápido que a média, relatório anual OIC
🇫🇷 FRANÇA
13,6% — da construção é feminina
+5pp em 25 anos, liderança empresarial feminina forte, 2-3% nos estaleiros
🇮🇹 ITÁLIA
~9% — da construção é feminina
56% das eng.cias civis são mulheres, mas taxa emp. feminino global mais baixa da UE
🇬🇧 REINO UNIDO
15,6% — da construção é feminina
Líder europeu, +170% de aprendizes femininas, mas pay gap de 23,7%
Os Quatro Obstáculos Transversais
Independentemente do país, a investigação e os dados identificam quatro obstáculos estruturais comuns que explicam a sub-representação feminina na construção:
A imagem do sector: a construção é percepcionada, pela esmagadora maioria das jovens em orientação vocacional, como um sector fisicamente exigente, sujo, perigoso e masculino. Esta percepção, que a tecnologia e a mecanização estão a tornar progressivamente desactualizada, afasta as mulheres antes de chegarem sequer à porta de entrada
A ausência de modelos femininos visíveis nos estaleiros: a maioria das trabalhadoras do sector está em escritórios, invisível para as raparigas que visitam obras em contexto escolar. Sem mulheres visíveis em funções de obra, o ciclo de sub-representação perpetua-se
Instalações inadequadas: a ausência de vestiários e sanitários separados por género continua a ser um problema reportado em todos os países, especialmente nas PME e nas obras de menor dimensão. Parece trivial mas não é
O gap de competências específicas: os EPI (Equipamentos de Protecção Individual) são concebidos para corpos masculinos médios. Luvas, botas, coletes, arneses, quase nada está adequadamente dimensionado para mulheres. Um obstáculo prático real que os fabricantes estão apenas a começar a endereçar
“Tenho ainda dificuldade em encontrar EPI adaptados à minha morfologia. Investi em tudo desde o primeiro dia, mas chegar a equipamento que me proteja e que me sirva continua a ser uma busca.”
PEINTRE ARTISANE FRANCESA EM RECONVERSÃO PROFISSIONAL — PRÉVENTION BTP, 2024
O Que a Investigação Diz Sobre o Impacto da Diversidade
Uma revisão dos estudos disponíveis sobre o impacto de equipas mistas na construção converge numa conclusão: as empresas com maior diversidade de género tendem a ter melhor desempenho em comunicação interna, resolução de problemas e satisfação de clientes. Um estudo da Harvard Business School (Letian Zhang) sublinha que este efeito é mais pronunciado quando a diversidade é vista como norma cultural positiva dentro da organização, não como imposição externa.
No domínio específico da segurança em estaleiro, há evidências de que equipas mistas apresentam menores taxas de comportamentos de risco: a presença feminina nos estaleiros tende a criar dinâmicas sociais onde o cumprimento das normas de segurança é mais valorizado e menos percepcionado como "fraqueza". Um argumento de segurança para a diversidade que ainda é raramente invocado pelas associações sectoriais.

Perspectivas e Recomendações
Para os governos
A experiência espanhola com o Observatorio Industrial de la Construcción e o Plano de Acção para a Igualdade de Género na Construção oferece um modelo replicável. Portugal e Itália, em particular, beneficiariam de um enquadramento sectorial específico que inclua obrigações de reporte, metas mensuráveis e mecanismos de financiamento de programas de formação para mulheres.
Para as associações sectoriais
O modelo britânico do CITB, financiado por uma levy obrigatória sobre os salários do sector, é provavelmente o mais eficiente para garantir sustentabilidade a programas de atracção e retenção de mulheres. Uma variante desta abordagem, adaptada ao contexto ibérico, poderia ser desenvolvida no quadro do Portugal 2030 e do PRR.
Para as empresas de construção
A evidência aponta para três medidas de impacto imediato:,investimento em EPI adequados para mulheres, criação de instalações físicas separadas por género nos estaleiros, e programas de mentoria que conectem as poucas trabalhadoras com experiência a pé de obra com as recém-chegadas.
Para os sistemas de formação
O crescimento de 170% nas aprendizagens femininas no Reino Unido, entre 2019 e 2024, demonstra que programas específicos de divulgação nas escolas e centros de formação funcionam. Em Portugal, Espanha, França e Itália, existem iniciativas pontuais deste tipo — mas nenhuma com a escala e os recursos do CITB britânico
Uma Conversa que Começou em 2022 e Que Não Terminou
Quando a Engenho & Arte publicou, a 8 de Março de 2022, o artigo "Construção Civil no Feminino", o ponto de partida era preciso e desconcertante. As mulheres que trabalham em estaleiros não conseguem encontrar equipamentos de protecção individual que lhes sirvam. Botas demasiado grandes, calças que chegam às canelas, coletes de alta visibilidade que engolem os ombros. Um problema que, à primeira vista, parece logístico — e que, na realidade, é o sintoma mais visível de um sector que, durante décadas, simplesmente não foi concebido para que as mulheres nele existissem.
Esse artigo foi escrito no contexto da participação da Engenho & Arte num programa europeu no qual, entre outros temas relacionados com o futuro da indústria da construção, foi discutida a presença das mulheres no sector. A construção no feminino não era então, nem é hoje, um tema marginal para esta publicação. É uma questão de fundo: de competitividade, de segurança, de demografia e de justiça.
O texto de 2022 ancorava-se em testemunhos reais de obra,;
a pedreira britânica Darcie Richards, que com 1,50 m de altura se via obrigada a arregaçar as calças de trabalho para improvisar uns calções de estaleiro; a directora de obras
Siu Mun Li, da Multiplex Construction Europe, que durante mais de 20 anos usou EPIs duas vezes maiores do que o necessário, com o risco de ficar presa nas armaduras de aço;
Louise Houston, da Tarmac, que em 2019 lançou o primeiro EPI adaptado para mulheres grávidas. Não eram histórias de excepção. Eram a regra.
Três anos passados, o retrato que este dossier traça para cinco países europeus confirma que os contornos do problema são os mesmos, mas que a consciência sobre eles cresceu. Em Espanha, o Observatorio Industrial de la Construcción publica hoje dados granulares por ocupação e género que em 2022 simplesmente não existiam. Em França, o Observatoire des Métiers du BTP estuda pela primeira vez a distribuição regional da feminização. No Reino Unido, as aprendizagens femininas cresceram 170% entre 2019 e 2024. Em Portugal, a CIG publicou um Boletim Estatístico de Igualdade de Género que inclui, pela primeira vez, dados salariais desagregados para a construção.
Os números avançam. A mudança é lenta, mas é mensurável. O que este dossier procura fazer é exactamente o que o artigo de 2022 fez, em escala menor: pôr o problema em perspectiva, com dados verificáveis e vozes reais. Porque as mulheres que hoje entram para um estaleiro em Lisboa, em Madrid, em Lyon, em Milão ou em Birmingham ainda enfrentam — com variações — o mesmo conjunto de obstáculos que Darcie Richards descrevia no TikTok há três anos. A diferença é que hoje há mais pessoas a falar sobre isso. E algumas delas têm poder para mudar qualquer coisa.
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Joaquim Nogueira de Almeida
FONTES E REFERÊNCIAS
— INE / GEP-MTSSS (2024). Estatísticas de Salários por Profissões na Construção. Portugal.
— CIG — Comissão para a Igualdade de Género (2024). Boletim Estatístico de Igualdade de Género 2024. Portugal.
— PORDATA / INE (2025). Perfil da Mulher em Portugal — publicação 8 de Março 2025.
— Sindicato da Construção Civil de Portugal / SUPERCASA (2021). Há mais 1700 mulheres na construção civil em Portugal.
— Fundación Laboral de la Construcción / OIC (2024). Mujeres en el Sector de la Construcción 2024. Madrid.
— MITES — Ministerio de Inclusión, Seguridad Social y Migraciones (2024). La Situación de las Mujeres en el Mercado de Trabajo 2024. Madrid.
— FFB — Fédération Française du Bâtiment / U2P (2026). Communiqué: La Place des Femmes dans le BTP. Paris, 3 mars 2026.
— Observatoire des Métiers du BTP (2024). Étude sur la Féminisation des Métiers du BTP en Île-de-France. Paris.
— Prévention BTP (2024). Femmes dans le BTP: un nécessaire changement de paradigme.
— Batirama (2025). Dans le BTP, seulement 2 à 3% de femmes sur les chantiers.
— ISTAT (2024). Noi Italia: Istruzione e Lavoro — Mercato del Lavoro. Roma.
— ANCE / Alley Oop — Il Sole 24 Ore (2024). Edilizia, nei cantieri ancora solo una donna ogni 10 addetti.
— GeoJOB (2021). Donne in Edilizia: Dati in Crescita. Milano.
— ONS — Office for National Statistics (2024). Employment in UK Construction by Gender. Londres.
— CITB — Construction Industry Training Board (2024). Annual Report and Accounts 2024-2025. Bircham Newton.
— Approach Personnel (2025). Women in Construction: 2025 Trends, Growth and Remaining Challenges.
— Home Grail (2025). 14 Women in Construction Statistics in the UK: 2025 Update.
— PlanRadar (2022). Women in Construction 2022: A Global Overview.
— SEPE — Servicio Público de Empleo Estatal (2025). Informe del Mercado de Trabajo de las Mujeres Estatal — Datos 2024.
— Unión Europea / Comisión Europea (2017-2020). Proyecto Women Can Build.
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